
Por Pedro Mastrobuono
Há paradoxos que não se resolvem por decreto, nem por silêncio elegante. Eles permanecem, trabalhando em profundidade, como uma tensão subterrânea que atravessa tradições inteiras. O cristianismo, quando levado a sério em sua densidade teológica, carrega um desses paradoxos no coração da sua relação com o judaísmo, e talvez seja precisamente a dificuldade de nomeá-lo que explique parte das agressividades recorrentes que ainda se projetam sobre o povo judeu.
Se o monoteísmo afirma um D’us único, eterno, onisciente e imutável, então a ideia de promessa não pode ser reduzida a expediente histórico. Prometer, nesse horizonte, não é experimentar, nem testar, nem corrigir. É afirmar algo que se inscreve fora do tempo. Essa intuição foi formulada com rigor filosófico raro por Moshé ben Maimon, conhecido na tradição judaica como Maimônides, pensador do século XII, nascido em Córdoba, no contexto do judaísmo sefardita medieval, e falecido no Egito, onde atuou como médico e jurista. Em obras como a Guia dos Perplexos, Maimônides elaborou uma das mais consistentes metafísicas do monoteísmo, descrevendo D’us como conhecedor, conhecimento e conhecido, uma unidade absoluta na qual não há processo, nem arrependimento, nem revisão. O tempo pertence à criatura. A eternidade, ao Criador.
A dificuldade surge quando a história cristã, especialmente a partir dos seus primeiros séculos, busca conciliar essa ideia de D’us com a afirmação de uma nova aliança entendida como substituição. A chamada teoria da substituição sustenta que as promessas originalmente feitas por D’us ao povo judeu teriam sido transferidas à Igreja, que passaria a ser a legítima herdeira dessas promessas. A antiga aliança não seria apenas reinterpretada, mas considerada superada, e seu destinatário original substituído. A teologia da substituição não nasce de ódio explícito. Ela nasce de uma necessidade interna: afirmar a centralidade cristológica sem abdicar do monoteísmo herdado. Aurelius Augustinus, bispo de Hipona, no norte da África romana, figura central da patrística latina e conhecido no imaginário católico como Santo Agostinho, tentou administrar essa tensão de forma engenhosa. Em sua chamada teoria do testemunho, Israel não seria eliminado da história, mas permaneceria como prova viva de uma promessa superada, conservado sob o signo da errância e da subalternidade.
Durante séculos, essa construção ofereceu uma espécie de repouso conceitual. Ela permitia afirmar a fidelidade divina sem encarar plenamente o problema da revogação. Mas esse repouso era frágil. Ele dependia de uma condição empírica específica: a permanência do judeu como povo disperso, vulnerável, marcado pelo sofrimento histórico. Quando essa condição se rompe, a arquitetura inteira começa a ranger.
O Holocausto rompeu esse edifício de maneira brutal. Tornou moralmente insustentável qualquer leitura que associasse sofrimento judaico à pedagogia divina. O Estado de Israel, por sua vez, rompeu-o de maneira silenciosa e persistente. A errância deixou de ser destino. A subalternidade deixou de ser regra. A exuberância intelectual, científica e cultural tornou-se um dado incontornável da história contemporânea. Nada disso prova teologicamente uma tese. Mas tudo isso desautoriza leituras antigas que dependiam da miséria como sinal.
A Igreja Católica, com lucidez ética, reconheceu parte desse colapso ao revisar posições históricas no Concílio Vaticano II, especialmente com a declaração Nostra Aetate, promulgada em 1965. Note-se quão recente é essa mudança de paradigma na longa duração da história cristã. Ao abandonar a culpa coletiva, condenar o antissemitismo e reafirmar o vínculo espiritual com o povo judeu, a Igreja realizou um gesto de reconciliação moral e teológica de enorme importância. Foi um passo decisivo. Mas foi também um passo prudente. O paradoxo ontológico não foi enfrentado frontalmente. Foi contornado.
É aqui que emerge uma hipótese interpretativa que raramente é formulada com clareza. É possível que cristãos cultos, sensíveis e honestos tenham percebido, ainda que de modo difuso, essa fratura interna. A percepção de que a promessa não se revoga sem que o próprio conceito de D’us se fragmente. A percepção de que o povo judeu, longe de ser vestígio de um passado superado, permanece como sujeito vivo de uma história que não se deixou substituir. Essa percepção produz inquietação. E inquietações não pensadas tendem a se transformar em ressentimento.
Essa inquietação, ademais, não está escondida em textos alheios ou inacessíveis. O chamado Antigo Testamento não foi retirado dos cânones cristãos. Ele permanece impresso em qualquer Bíblia de matriz cristã, seja católica, protestante ou evangélica. As promessas feitas ao povo judeu estão ali, nas próprias Escrituras que o cristão reconhece como sagradas. Qualquer leitor atento pode encontrá-las em seu próprio texto religioso, sem necessidade de recorrer a fontes externas.
Quando uma tradição não encontra linguagem para reelaborar uma tensão interna, ela corre o risco de projetá-la no outro. O judeu passa a ser visto não apenas como diferente, mas como lembrança incômoda. Sua existência contínua torna-se uma pergunta silenciosa que não cessa. E perguntas não respondidas, quando pressionam identidades frágeis, frequentemente despertam agressividade.
Isso não explica todo o antissemitismo. Mas talvez explique uma de suas camadas mais persistentes e menos confessáveis. Não se trata apenas de ódio ao outro. Trata-se do desconforto diante de uma promessa que não se deixou silenciar.
O paradoxo, então, não está resolvido. Ele permanece. Mas isso não precisa ser lido como fracasso. Pode ser lido como convite. Um convite a abandonar definitivamente a lógica da substituição e a pensar a diferença sem anulação. Um convite a reconhecer que a fidelidade divina não é um jogo de trocas, e que a verdade de uma tradição não exige o apagamento da outra.
Talvez a maturidade teológica do nosso tempo não consista em definir vencedores, mas em sustentar tensões sem transformá-las em violência. Defender uma civilização não é expulsar o que a funda. Defender uma fé não é negar a herança que a sustenta. Defender a promessa é recusar a tentação de revogá-la quando ela se torna desconfortável.
A desumanização começa na palavra, mas a reconciliação também. Começa quando se aceita que há perguntas que não se calam, e que silenciá-las à força apenas as faz retornar sob formas mais sombrias.
No fundo, o que está em disputa não é um povo, nem um território, nem um episódio da história. O que está em disputa é a própria leitura da essência divina. Se prevalecer a imagem de um D’us onisciente, absoluto e fiel a si mesmo, então a promessa não se revoga, não se substitui, não se corrige. Se, ao contrário, prevalecer a imagem de um D’us ao qual se atribuem categorias humanas de arrependimento, revisão e troca, então o monoteísmo se dissolve em narrativa. Esse é o paradoxo. Não entre judeus e cristãos, mas entre duas concepções de D’us.
Um D’us que transcende o tempo não se arrepende. Uma promessa que é ontológica não se dissolve. Talvez o desafio mais profundo do cristianismo contemporâneo não seja provar que herdou a promessa, mas conviver honestamente com a pergunta incômoda que qualquer leitor atento de suas próprias Escrituras acaba por formular: D’us mudou de ideia? D’us reviu suas promessas? Ou somos nós que ainda não encontramos linguagem suficiente para pensar a fidelidade divina sem projetar nela as nossas próprias hesitações humanas.












