Por Hebecca Silva 

Em 1857 é relatada uma manifestação das funcionárias têxteis em Nova York, Estados Unidos, supostamente após uma grande tragédia ocorrida em 8 de maio daquele ano, na qual operárias teriam sido mortas em um incêndio criminoso na fábrica em questão. Incêndio esse que, supostamente, fora motivado pela aversão às manifestações por melhores condições de trabalho. Muitos relacionam a data a esse evento, contudo, isso nunca aconteceu. Não há registros históricos sobre o incêndio. Entretanto, houve um incêndio causado por péssimas condições de trabalho em Nova York, na fábrica Triangle Shirtwaist Company, em 1911. A tragédia tirou 146 vidas. 

Existem muitas variantes de como se originou a data, por isso, vamos aos fatos na ordem cronológica dos acontecimentos. Em 1909, três anos antes do incêndio, 15 mil mulheres já se manifestavam por melhores condições de trabalho, melhores salários e direito ao voto. A greve se encerrou oficialmente em 15 de fevereiro de 1910. 339 firmas fizeram acordos com os trabalhadores e 13 não chegaram a nenhum acordo, incluindo a Shirtwaist Company que, se o tivesse feito, poderia ter evitado o incêndio de 1911. O Partido Socialista Americano começou oficialmente a se envolver com o sufrágio feminino em 1909, designando o dia 28 de fevereiro como o Woman’s Day (Dia da Mulher). Essa celebração pelos direitos das mulheres ocorreu alguns meses antes da greve de Nova York. Apesar disso, alguns acreditam que o partido só apoiou o movimento feminino para conquistar seus votos quando adquirissem o direito de votar. Em 1910, durante a Segunda Conferência Internacional das Mulheres Socialistas, em Copenhague (Dinamarca), a ativista Clara Zetkin propôs um Dia Internacional da Mulher. A proposta tinha como objetivo dar mais visibilidade ao movimento feminino. E em 1911, a data foi celebrada na Áustria e na Alemanha pela primeira vez. 

Em 27 de fevereiro de 1917 (no calendário russo, ou 8 de março), mulheres de Petrogrado (atual São Petersburgo) que haviam ficado em casa enquanto os homens foram participar da guerra, saíram às ruas (mais de 190 mil) para se manifestarem quanto a escassez e preços altos de alimentos. Em 10 de março, a greve se tornou geral. Já no dia 12 os revolucionários criaram o Soviete (Conselho dos Operários) de Petrogrado e no dia 14 foi criado um Governo Provisório. No dia 17, com o exército ao lado dos revolucionários, o Czar Nicolau II renunciou e a Rússia se converteu em República. Essa revolução ficou conhecida como a Revolução de Fevereiro ou Revolução Branca, sendo a primeira fase da Revolução Russa que deu origem à União Soviética. A data do 8 de março foi decidida na 2ª Conferência Internacional de Mulheres Comunistas, em 1920, em homenagem às revolucionárias do 8 de março de 1917.  

Em 1945, a igualdade de direitos entre homens e mulheres foi incluída na Carta da Organização das Nações Unidas (ONU). As mulheres não queriam ficar excluídas da nova ordem mundial que seria organizada com a criação da ONU após a guerra. Então, mulheres de altas esferas políticas se reuniram em Londres para elaborar a carta de direitos da população feminina, a ser apresentada na mesma reunião em que seria redigida a Carta das Nações Unidas. A ONU denominou 1975 como o Ano Internacional da Mulher e fez uma declaração a respeito da comemoração do Dia Internacional da Mulher, trazendo destaque para a contribuição de Clara Zetkin para o movimento, mas omitindo a história dos acontecimentos na Rússia. 

Percebe-se que, ao contrário de muitas datas comemorativas, o Dia Internacional da Mulher não é um dia nascido da necessidade comercial, é um dia político, com uma história marcada por coragem e força. A busca por justiça e igualdade para as mulheres, infelizmente, está longe de acabar. Todos os dias mulheres são subestimadas, mortas e violentadas. Grandes mulheres da história já tiveram seus feitos diminuídos e/ou apagados. Essas são coisas que continuam acontecendo nos dias de hoje, pelas mãos de uma sociedade ensinada a hostilizar essas pessoas. Por isso o 8 de março é tão importante. É um lembrete de toda a luta que as mulheres tiveram e de toda a luta que ainda terão. Todo apoio à causa é importante. Toda voz merece ser ouvida e, por tudo o que as mulheres fizeram e fazem pela humanidade, reconhecer as suas vozes e atender às suas necessidades é o mínimo. 

Parabéns a todas as mulheres e meninas, pois sabemos que essa luta começa muito cedo. Desejamos um futuro em que ela não seja mais necessária. 

Fontes:  

GIANNOTTI, Vito. O Dia da Mulher nasceu das mulheres socialistas. Núcleo Piratininga de Comunicação, v. 8, n. 03, 2004. 

Declaração Universal dos Direitos Humanos. Disponível em:  https://www.unicef.org/brazil/declaracao-universal-dos-direitos-humanos 

As origens e a comemoração do Dia Internacional das Mulheres. São Paulo: Expressão Popular, 2010. Disponível em: https://www.sof.org.br/wp-content/uploads/2010/03/Origens-Dia-Internacional-das-Mulheres-PAG-de-credito.pdf.  

O Dia Internacional da Mulher e a Luta por Igualdade: Reflexões e Compromissos. Disponível em: https://exame.com/pop/dia-internacional-das-mulheres-por-que-a-data-e-comemorada-no-dia-8-de-marco/ 

Nada de incêndio na fábrica! Esta é a verdadeira história do 8 de março. Disponível em: https://azmina.com.br/reportagens/esqueca-o-incendio-na-fabrica-esta-e-a-verdadeira-historia-do-8-de-marco/ 

Tags:

Patrocinadores