ODS 10 e o Desafio de Reduzir Desigualdades no Brasil e no Mundo
Por Maurício Paiva
Tem dias marcados que não vêm só para ficar na memória. Eles chegam para mexer com a cabeça também. Vinte e um de março faz parte desse grupo raro. Nesta data, os países lembram o Dia Internacional pela Erradicação da Discriminação Racial, instituído pela Organização das Nações Unidas há décadas. Longe de ser apenas mais uma data no calendário, ela abre espaço coletivo para pensar nas desigualdades raciais que persistem ao redor do mundo.
A escolha dessa data tem motivo. Vai direto ao massacre de Sharpeville, em 1960, nas terras sul-africanas. Gente demais marchava sem armas, só para dizer basta às regras racistas do apartheid, que impediam movimentos de quem era negro. Os policiais responderam com tiros à queima-roupa e sessenta e nove corpos caíram, quase quatrocentos sangraram nos hospitais depois.
A história desse acontecimento ecoou em muitos países, movendo pessoas contra o preconceito de cor. Por isso a ONU escolheu esse dia: 21 de março entrou no calendário mundial para lembrar a luta por justiça e respeito entre todos.
Racismo estrutural: quando a desigualdade se revela nos números
Já faz um bom tempo desde aquilo. As mudanças aconteceram ao longo do caminho — surgiram regras contra a discriminação, programas oficiais para incluir mais pessoas, o assunto sobre raça começou a aparecer com frequência. Apesar disso tudo, os números recentes indicam: a diferença entre pessoas por causa da cor da pele ainda existe no dia a dia.
Imagine só: no Brasil, gente preta ou parda compõem quase metade do país – uns 55%, diz o IBGE. Mesmo sendo tantos, seguem atrás na corrida por progresso justo, estudo bom, chances reais de subir. A presença é grande, mas o reconhecimento não acompanha nem de longe.
A desigualdade ganha forma nos números do emprego: quem se declara branco leva para casa quase dois terços a mais do que chega aos bolsos de negros e pardos. Olhando para os números de renda e de pobreza, a situação se revela com mais evidência. Dados produzidos pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada mostram isso: nos dez por cento mais pobres do país, a maioria esmagadora é composta por gente preta. Quase oito em cada dez pertencem a esse grupo; ao olhar para o grupo dos dez por cento mais abastados, cerca de sete em cada dez pertencem ao grupo racial branco.
Aqui, os dados revelam algo maior: a desigualdade racial vai além de episódios pessoais, enraizando-se em sistemas econômicos e sociais que persistem ao longo do tempo. Enquanto algumas pessoas enfrentam barreiras invisíveis, outras encontram vantagens silenciosas. O peso do passado ainda molda o presente para muitos. Estruturas antigas continuam ativas, mesmo quando ninguém fala delas. Geração por geração, os mesmos padrões se repetem, quase sem perguntas.
Violência e desigualdade racial
A situação de segurança pública mostra outro sinal de alerta. Quase 80% dos mortos por assassinato no Brasil são negros, mostra o Atlas da Violência. Esse levantamento é produzido pelo IPEA junto com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública. A cor da pele pesa muito nessa conta triste. Pessoas pretas e pardas aparecem na maior parte dos casos. O número não surpreende quem já conhece os padrões desse tipo de violência. Dados assim refletem uma realidade antiga, mas sempre urgente. Eles provêm de fontes oficiais, organizadas ao longo de anos. Um retrato feito com estatísticas brutais. Muitas histórias se perdem atrás desses percentuais. Mesmo assim, eles ajudam a ver o tamanho do problema.
Para os mais novos, a situação chega a ser pior. Muitos rapazes pretos correm perigo bem maior de morrer na violência do que meninos brancos. Isso evidencia como o racismo afeta até mesmo quem tem chance de viver com proteção.
Educação e oportunidades
A escola costuma ser vista como escada para subir na vida, ainda que espelhe divisões antigas.
Pessoas brancas mostram taxas mais altas de escolaridade, segundo dados examinados pela ONU. Ainda assim, adolescentes e jovens adultos negros aparecem em número maior entre os que nem estudam nem têm emprego – um conjunto algumas vezes descrito como “nem-nem”.
Hoje, a maneira como as pessoas chegam ou não à escola mostra uma rachadura profunda nas chances de crescimento. Quando certos grupos ficam sempre para trás, repetem-se padrões difíceis de romper. Isso acontece porque aprender nem sempre é oferecido da mesma forma para todos. A cada geração, quem começa com menos acaba caminhando mais devagar. O aprendizado vira privilégio em vez de direito. Sem equidade na formação, velhas diferenças se arrastam sem fim.
ODS 10: reduzir desigualdades para transformar sociedades
Pensar na equidade leva à meta dez, onde combater o racismo caminha junto com reduzir diferenças locais ou globais. Quando certas pessoas ainda ficam de fora, sem acesso a direitos ou chances reais, o futuro em comum vacila. Esse ponto da Agenda 2030 surge justamente aí, porque inclusão é condição, não escolha. Sem lugar para todos, nenhuma trajetória se sustenta. O que parece detalhe, na verdade define tudo.
A luta contra o racismo vai além das peças do passado ou de um dever moral; na verdade, se entrelaça com a criação de comunidades mais justas, onde a democracia respira melhor e a economia encontra chão firme. Enquanto isso, ignorar esse combate desestabiliza todo o tecido social.
Um convite à reflexão
Na verdade, o Dia Internacional pela Eliminação da Discriminação Racial vai além de uma simples recordação do passado. Acima de tudo, funciona como um chamado silencioso. Um chamado às injustiças que ainda persistem.
Conversas mais abertas sobre pertencimento começam aqui. Diferenças ganham espaço quando se fala delas sem pressa. Olhares variados entram pela porta devagar. Pessoas distintas encontram lugar nessa troca. Escutar vira parte do caminho, não só falar. Assim, entender cresce em vez de julgar. Ainda mais, um chamado para sonhar – além de criar – uma realidade onde a cor da pele não decide o caminho de ninguém.
Aqui está uma mudança que muitos esperam: menos distâncias entre pessoas, mais sentido de pertencer juntos. Isso não caminha sozinho; precisa de atitudes reais todos os dias. O mundo pede equilíbrio, ainda que em silêncio. Cada passo nessa direção fortalece laços frágeis. Não se trata apenas de metas oficiais, mas do que fazemos quando ninguém vê.
Referências:
Organização das Nações Unidas
. Agenda 2030 – Objetivos de Desenvolvimento Sustentável https://sdgs.un.org/goals
UNESCO
. International Day for the Elimination of Racial Discrimination https://www.unesco.org/en/days/racial-discrimination-elimination
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE)
. Síntese de Indicadores Sociais https://www.ibge.gov.br/estatisticas/sociais/populacao/9221-sintese-de-indicadores-sociais.html
. Desigualdades sociais por cor ou raça no Brasil https://www.ibge.gov.br/estatisticas/sociais/populacao/25844-desigualdades-sociais-por-cor-ou-raca.html
. PNAD Contínua – Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios https://www.ibge.gov.br/estatisticas/sociais/trabalho/17270-pnad-continua.html
Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA)
. Atlas da Violência https://www.ipea.gov.br/atlasviolencia/publicacoes
. Retratos da Desigualdade de Gênero e Raça https://www.ipea.gov.br/retrato/
. Indicadores de renda, pobreza e desigualdade https://www.ipea.gov.br/portal/categorias/272-retratos-indicadores/retratos-indicadores-renda-pobreza-e-desigualdade
Fórum Brasileiro de Segurança Pública
. Anuário Brasileiro de Segurança Pública https://forumseguranca.org.br/publicacoes/anuario-brasileiro-de-seguranca-publica/
Maurício Paiva é articulador cultural, comunicador e ativista dos direitos humanos. Integra o Coletivo LGBT+ de Santa Luzia, onde atua como organizador das Paradas do Orgulho LGBT+ no município, promovendo cidadania e visibilidade LGBTQIA+. Atua junto às Bibliotecas Comunitárias na democratização do acesso ao livro, à leitura e à educação, trajetória que contribuiu diretamente para a aprovação da Lei do Plano Municipal do Livro, Leitura, Literatura e Bibliotecas (PMLLLB) de Belo Horizonte. Foi conselheiro municipal de cultura de Belo Horizonte na cadeira de Literatura, Livro, Leitura e Bibliotecas e recebeu reconhecimento da Academia Luziense de Letras e Artes (ALUZ) por sua contribuição à educação e à democratização do acesso ao livro. Integra o grupo de voluntários da Unibes.












