
Por Pedro Mastrobuono
Vocês que observavam
Nelly Sachs
O verso de Nelly Sachs não descreve uma cena. Ele convoca uma consciência. Não aponta o carrasco, não enumera os instrumentos da violência, não se detém na espetacularidade do horror. Interpela aqueles que permaneceram de pé, com os olhos abertos, enquanto o assassinato acontecia debaixo deles. A poesia de Sachs nasce do ponto mais incômodo da experiência histórica, aquele em que a violência não encontra resistência suficiente porque encontra adaptação.
Vivemos um tempo em que a violência se tornou visível como nunca. Imagens circulam em velocidade instantânea, relatos atravessam continentes em segundos, estatísticas se acumulam em telas luminosas. E, ainda assim, algo essencial se perdeu. A capacidade de sustentar o olhar até o fim. O mundo contemporâneo assiste, comenta, compartilha e segue adiante, como se a repetição do horror fosse um dado natural da paisagem e não uma construção histórica alimentada pela indiferença.
O poema abaixo, de Nelly Sachs, foi escrito no pós-guerra e integra o núcleo de sua reflexão poética sobre memória, testemunho e responsabilidade histórica.
Vocês que observavam
Debaixo de seus olhos aconteceram assassinatos.
Como o olhar que cada um sente pelas costas
Vocês também sentiram no corpo
O olhar dos mortos.
Quantos olhos estilhaçados irão vê-los
Enquanto arrancam de seus esconderijos uma violeta?
Quantos braços erguidos em agonia
Nos ramos trançados pelo martírio
Dos carvalhos antigos?
Quanta memória brota no sangue
Do poente?
Ah, os acalantos sem voz
No rufo noturno das pombas
Se algum deles pudesse descer com as estrelas,
Mas agora quem as traz é o velho poço!
Vocês que observavam
E não ergueram a mão para o crime
Mas não varreram o pó da sua tristeza
E que ali permanecem, onde o pó converteu-se
Em luz.
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Nos últimos meses, corpos jovens voltaram a cair em diferentes geografias, sob justificativas diversas, mas segundo um mesmo padrão de normalização. Um jovem assassinado em plena Europa, em meio a disputas ideológicas que rapidamente se dissolvem no ruído das narrativas concorrentes. No Irã, uma repressão de escala massiva contra uma geração que ousou transformar o protesto em linguagem política, enfrentando um Estado que responde com a lógica do desaparecimento. Em ambos os casos, a violência não se oculta por completo. Ela se deixa ver. O que se oculta é a continuidade da indignação.
No caso iraniano, as estimativas independentes mais consistentes já falam em dezenas de milhares de mortos, com projeções que se aproximam de trinta mil vítimas. Não se trata de fixar um número definitivo, tarefa quase impossível quando o próprio regime transforma o apagamento em método, mas de reconhecer a escala e o padrão. Corpos ocultados, funerais vigiados, famílias impedidas de nomear seus mortos, profissionais de saúde perseguidos por terem tentado preservar a vida. O Estado não mata apenas corpos. Ele tenta romper o elo entre morte, nome e memória. Ao fazê-lo, converte o desaparecimento em política pública e a invisibilidade em estratégia de poder.
O mais perturbador, porém, não está apenas na brutalidade do regime, mas no modo como o mundo aprende a conviver com ela. Noticia-se, lamenta-se, arquiva-se. O fluxo informativo segue seu curso e a exceção transforma-se em rotina. Não se trata de ignorância. Trata-se de acomodação moral. Uma forma sofisticada de silêncio funcional, na qual a consciência se protege do excesso de dor reduzindo o outro a uma abstração distante.
É nesse ponto que a poesia de Nelly Sachs retorna com força intacta. “Vocês que observavam.” O poema não absolve aqueles que não ergueram a mão para o crime, mas também não romantiza sua tristeza. Permanecer, quando o pó se acumula e não é varrido, é uma escolha. E toda escolha, mesmo passiva, produz efeitos históricos. A tradição judaica aprendeu, ao preço mais alto possível, que a indiferença raramente é neutra. Ela costuma ser o ensaio geral da barbárie.
Costuma-se dizer que a violência que começa contra os judeus nunca termina apenas contra os judeus. Não porque exista uma hierarquia do sofrimento, mas porque toda violência que se inaugura contra um grupo apresentado como exceção acaba, cedo ou tarde, normalizada como método. Quando isso acontece, já não importa quem é judeu, cristão, iraniano ou europeu. Importa apenas quem está sob o olhar e quem se habituou a olhar sem agir. A história do século XX deixou claro que o problema não é apenas o ódio explícito, mas a capacidade social de se adaptar a ele.
A Shoá ensinou que a barbárie não se impõe de uma vez. Ela se infiltra. Primeiro como discurso, depois como prática localizada, por fim como paisagem. O olhar que não se retira, mas também não se compromete, torna-se parte do mecanismo. Por isso, no poema de Sachs, os mortos olham de volta. Não para pedir vingança, mas para exigir fidelidade à memória. A memória, aqui, não é culto ao passado. É advertência dirigida ao presente.
O mundo contemporâneo gosta de se pensar vacinado contra os horrores do século passado. Acredita que a abundância de informação funciona como antídoto. Mas talvez nunca tenhamos estado tão próximos daquilo que Sachs denunciava. Uma sociedade que vê tudo e reage pouco. Que se comove brevemente e se distrai rapidamente. Que transforma a violência em conteúdo e o sofrimento em dado estatístico.
Não é por acaso que regimes autoritários prosperam onde o olhar se cansa. A repressão precisa menos do silêncio absoluto do que da dispersão. Precisa que o horror não se concentre tempo suficiente para se tornar insuportável. Precisa que a indignação não encontre forma durável. O poema de Nelly Sachs, escrito após a maior catástrofe moral do Ocidente, não oferece consolo. Oferece uma pergunta que permanece em aberto. O que fazemos com aquilo que vemos.
Talvez o maior risco do nosso tempo não seja a existência da violência, mas a rapidez com que aprendemos a conviver com ela. Não levantamos a mão para o crime, mas permanecemos. E é exatamente nesse permanecer, tão confortável quanto perigoso, que a história costuma cobrar seu preço mais alto.
Pedro Machado Mastrobuono é presidente da Fundação Memorial da América Latina, pós-doutor em Antropologia Social, e foi agraciado com a Comenda Câmara Cascudo do Senado Federal por sua trajetória na proteção ao patrimônio cultural nacional.












