
Por Lavínia de Arruda Rezende
Em 25 de julho, Brasil e América Latina celebram a resistência das mulheres negras. Os dados mostram por que essa data também é uma medida de quanto falta para cumprir a meta global de igualdade de gênero
Em 1992, mais de 300 mulheres da América Latina e do Caribe se reuniram em Santo Domingo, na República Dominicana, no 1º Encontro de Mulheres Afro-Latino-Americanas e Afro-Caribenhas, para denunciar as opressões que atravessavam suas vidas (racismo, machismo, desigualdade estrutural) e articular uma resposta coletiva. Do encontro nasceu a Rede de Mulheres Afro-Latino-Americanas e Afro-Caribenhas e, com reconhecimento posterior da ONU, o 25 de julho tornou-se o Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha.
No Brasil, a data se sobrepõe a outra: desde a Lei 12.987/2014, o 25 de julho também celebra Tereza de Benguela, a “Rainha Tereza”, que no século 18 liderou por mais de duas décadas o Quilombo do Quariterê, no Vale do Guaporé, organizando um sistema próprio de defesa e governança comunitária até ser capturada e morta por tropas coloniais. Dois séculos depois, seu nome segue como símbolo de uma luta que os dados mostram não ter terminado.
Gênero e raça: uma equação que não se separa
O Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS) 5 da Agenda 2030 da ONU propõe alcançar a igualdade de gênero e empoderar todas as mulheres e meninas. Ao adaptar a meta global à realidade nacional, o governo brasileiro reconheceu algo central: a violência de gênero deve ser combatida em suas intersecções com raça, etnia e território, segundo o detalhamento publicado pelo Ipea. Não existe, nos indicadores de desigualdade, uma “mulher” genérica: existem mulheres brancas e negras, e a distância entre elas é, ela própria, uma medida de quanto a igualdade de gênero ainda está incompleta.
O que os números revelam
Os dados confirmam essa distância em quase todas as dimensões da vida. No mercado de trabalho, a Síntese de Indicadores Sociais 2025 do IBGE mostra diferença média de 27,2% no rendimento entre homens e mulheres, e o recorte racial aprofunda esse abismo: no segundo trimestre de 2024, a taxa de desemprego entre mulheres negras chegou a 10,1%, mais que o dobro da registrada entre homens não negros (4,6%), segundo boletim do Ministério do Trabalho e Emprego. Na renda domiciliar, dados do Ipea mostram que homens brancos vivem, em média, com o dobro da renda por pessoa de mulheres negras e suas famílias.
Na saúde, a desigualdade é questão de vida ou morte: segundo a Febrasgo, com base em dados do Ministério da Saúde, a mortalidade materna entre mulheres negras é mais que o dobro da registrada entre mulheres brancas, resultado de menor acesso ao pré-natal, início tardio do acompanhamento e racismo institucional nos serviços de saúde. A violência letal segue padrão semelhante: em 2025, o Brasil registrou 1.568 vítimas de feminicídio, o maior número desde a criação da lei em 2015, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Desse total, 62,6% das vítimas eram mulheres negras, em sua maioria jovens e em idade reprodutiva.
Na política, o quadro também é de sub-representação crônica: mulheres negras são o maior grupo populacional do país (cerca de 28%) mas em 2018 apenas 13 foram eleitas deputadas federais; em 2022, esse número subiu para 29, segundo a Mídia Ninja. Mais da metade dos municípios brasileiros não tem nenhuma vereadora negra eleita, segundo a Alma Preta.
Uma trajetória de protagonismo
Atrás dos números há histórias de transformação. Marielle Franco, socióloga, mãe e vereadora negra eleita pelo Rio de Janeiro em 2016 com a quarta maior votação da cidade, tornou-se símbolo dessa virada: levou ao parlamento as pautas de mulheres negras, da população LGBTQIA+ e de moradores de favela. Seu assassinato em 2018 transformou-se em mobilização nacional pela ocupação política de mulheres negras, e hoje projetos como o “Pretas no Poder” buscam formar novas candidaturas, partindo do princípio de que representação não é simbólica, é o que decide se uma política de saúde materna ou de segurança pública leva em conta quem mais sofre com sua ausência.
Avanços, desafios e o papel de cada setor
Os movimentos de mulheres negras conquistaram avanços concretos: a Lei Maria da Penha, cotas raciais em universidades e concursos, o reconhecimento institucional de datas como o 25 de julho e, mais recentemente, a tramitação da PEC da Reparação (PEC 27/2024), que propõe um fundo nacional de promoção da igualdade racial. Mas a aplicação dessas conquistas segue desigual: cotas eleitorais de gênero foram descumpridas em mais de 700 municípios nas eleições de 2024, e boa parte do financiamento de campanha continua concentrada em candidaturas de homens brancos.
Reduzir essa desigualdade exige ação coordenada. Políticas de saúde precisam incorporar o recorte racial e agir sobre ele, não apenas registrá-lo. Escolas e universidades têm papel central na formação antirracista e na permanência de mulheres negras na educação superior. Empresas são cobradas a ir além de campanhas de diversidade e garantir ascensão real a cargos de liderança. Veículos de comunicação moldam, todos os dias, qual imagem de mulher negra chega ao imaginário coletivo, há diferença enorme entre reforçar estereótipos e mostrar protagonismo. A sociedade civil, por fim, continua sendo motor de pressão e de produção de dados que o Estado muitas vezes demora a gerar.
Sem o enfrentamento simultâneo de gênero e raça, a igualdade prometida pelo ODS 5 continua sendo, na prática, uma meta pela metade.
Para ir além: referências culturais
Livros: Becos da Memória e Olhos d’Água, de Conceição Evaristo; Quarto de Despejo, de Carolina Maria de Jesus; O Que É Lugar de Fala?, de Djamila Ribeiro; Mulheres, Raça e Classe, de Angela Davis.
Filmes e documentários: Que Horas Ela Volta? (2015), de Anna Muylaert; produções da diretora Joel Zito Araújo sobre representação racial no audiovisual brasileiro; documentários sobre a trajetória de Marielle Franco disponíveis em plataformas de streaming.
Intelectuais e lideranças: Lélia Gonzalez, Sueli Carneiro, Conceição Evaristo, Djamila Ribeiro e Marielle Franco, no Brasil.
Iniciativas e projetos: Geledés – Instituto da Mulher Negra; Criola; Marcha Nacional das Mulheres Negras; Museu Afro Brasil, em São Paulo, com acervo dedicado à história e à arte da diáspora africana.
Fontes consultadas: IBGE, Ipea, Ministério do Trabalho e Emprego, Ministério das Mulheres, Febrasgo, Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Senado Federal, Agência Brasil e reportagens de Alma Preta e Mídia Ninja.
Lavínia de Arruda Rezende é graduanda do curso de Jornalismo e voluntária da Unibes.












