Como a ciência transforma o cotidiano e por que o Dia Nacional da Ciência merece ser celebrado  

Por Mateus Soares  

É comum, ao pensar em ciência, imaginar laboratórios, pesquisadores de jaleco e grandes descobertas que mudaram o rumo da humanidade. E, de fato, essa imagem remete ao rigor técnico e ao conhecimento acadêmico. Entretanto, há uma dimensão da produção científica que se manifesta muito antes de um experimento começar. 

Ao acordar e verificar a previsão do tempo, acessar o GPS para planejar o caminho até o trabalho, tomar uma medicação, receber o resultado de um exame, realizar uma transação bancária ou compartilhar uma foto na internet, estamos em contato com décadas de pesquisa e inovação. Cada uma dessas ações resulta da convergência de diferentes áreas do conhecimento, desenvolvidas por pesquisadores que contribuíram, ao longo do tempo, para os avanços tecnológicos que fazem parte da rotina. Como escreveu Carl Sagan em The Demon-Haunted World (1995): “A ciência é muito mais que um corpo de conhecimentos. É uma maneira de pensar.” 

Em 8 de julho é celebrado o Dia Nacional da Ciência, instituído pela Lei nº 10.221, de 2001. A data busca estimular o interesse dos jovens pela pesquisa e valorizar a produção científica brasileira, além de homenagear a fundação da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), criada em 1948. É também um convite para refletirmos sobre quanto o conhecimento produzido ao longo das últimas décadas está presente no cotidiano, ainda que seus resultados muitas vezes passem despercebidos. 

Quando a ciência ganhou protagonismo 

Durante muito tempo, a ciência permaneceu distante do cotidiano de grande parte da população. Há uma crítica crescente na academia ao que ficou conhecido como “Torre de Marfim”, expressão que, no contexto atual, descreve o isolamento intelectual e o distanciamento da realidade prática na produção de conhecimento. 

Durante a March for Science, em 2017, o astrofísico Neil deGrasse Tyson destacou: “Nós temos uma responsabilidade, como cientistas, de não apenas fazer a ciência, mas de trazê-la para o público. Nós não podemos mais nos dar ao luxo de permanecer em nossas torres de marfim. O custo de não comunicar a ciência é uma sociedade que perde a habilidade de tomar decisões informadas e baseadas em evidências.” 

Em um dos momentos mais sensíveis da história recente, essa distância foi significativamente reduzida. A pandemia de Covid-19 levou termos como vacinas, testes diagnósticos, estudos clínicos e sequenciamento genético para o centro das conversas. O conhecimento científico passou a ocupar manchetes de jornais e noticiários, pautando o debate público e dando visibilidade a um trabalho que, normalmente, acontece nos bastidores. 

Paralelamente, o grande volume de informações divulgado naquele período fez com que dados confiáveis passassem a disputar espaço com boatos, desinformação e conteúdos falsos. Esse cenário evidenciou ainda mais a necessidade de aproximar instituições, pesquisadores, jornalistas e a sociedade de forma democrática, acessível e transparente. Trata-se de transformar as “torres de marfim” em “pontes de marfim”, como propôs o geneticista brasileiro Sérgio Danilo Junho Pena, em 2013, na Academia Brasileira de Ciências. 

Nos dias de hoje, os avanços da inteligência artificial, da computação e da comunicação digital moldam a maneira como trabalhamos, produzimos conteúdo e nos relacionamos com o conhecimento. Essas transformações também impactam a divulgação científica. Tecnologias desenvolvidas em diferentes áreas passaram a integrar o cotidiano e reforçam a presença da pesquisa nos noticiários, mesmo para além dos momentos de crise. 

A ciência faz parte da história brasileira 

O Brasil possui uma trajetória consolidada na produção científica. Ao longo de sua história, institutos, universidades e sociedades científicas centenárias contribuíram para avanços em áreas como saúde pública, biodiversidade, agricultura, física, medicina e tecnologia. Essas instituições ajudaram a projetar o país internacionalmente, demonstrando sua capacidade de transformar conhecimento em soluções práticas que impactam a qualidade de vida da população. Entre as organizações que marcaram essa trajetória, destacam-se: 

  • Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz): criada em 1900, originalmente como Instituto Soroterápico Federal, na Fazenda de Manguinhos, no Rio de Janeiro, tinha como objetivo produzir soros e vacinas contra a peste bubônica. Suas contribuições acompanham a própria evolução da saúde pública no Brasil. Atualmente, também desempenha papel fundamental na produção de medicamentos e diagnósticos, além da formação de pesquisadores. 
  • Instituto Butantan: sua origem remonta a 1899, quando, em resposta à epidemia de peste bubônica, o governo de São Paulo criou um laboratório para a produção de soro antipestoso, vinculado ao então Instituto Bacteriológico, atual Instituto Adolpho Lutz. Em 1901, tornou-se uma instituição autônoma, inicialmente denominada Instituto Serumterápico. Posteriormente, sob a direção do médico Vital Brazil, consolidou-se como Instituto Butantan. Hoje, é reconhecido internacionalmente como referência em imunobiologia, pesquisas biomédicas, divulgação científica, educação ambiental e produção de soros e vacinas. 
  • Academia Brasileira de Ciências (ABC): fundada em 1916, nasceu da iniciativa de cientistas interessados em criar uma organização independente para promover o avanço da pesquisa no país. Atualmente, reúne pesquisadores de diversas áreas e desempenha papel importante na elaboração de estudos voltados às políticas públicas e na popularização do conhecimento científico. 
  • Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC): criada em 1948, surgiu como um movimento de mobilização da comunidade científica brasileira. Atua como interlocutora entre pesquisadores, instituições de ensino, órgãos públicos e o Congresso Nacional, reunindo profissionais de diferentes áreas e gerações em defesa do desenvolvimento científico. 

Além das instituições, inúmeros pesquisadores ajudaram a construir a credibilidade conquistada pelo Brasil na produção científica, e seria impossível fazer justiça citando apenas alguns deles. Ainda assim, vale destacar Oswaldo Cruz, que revolucionou a saúde pública brasileira no início do século XX. Ao demonstrar a relação entre as epidemias e as condições sanitárias das cidades, propôs medidas decisivas para o combate às doenças, além de desempenhar papel essencial nas campanhas de vacinação contra a varíola, posteriormente erradicada no país. 

Anos depois, o médico sanitarista Carlos Chagas realizou um feito histórico: a descrição completa de uma nova enfermidade. Identificou a doença que mais tarde receberia seu nome, seu agente causador, o vetor responsável pela transmissão e os principais aspectos clínicos da infecção. Até hoje, suas descobertas contribuem para o diagnóstico e o tratamento de milhões de pessoas na América Latina. 

Nesse mesmo período, Vital Brazil transformou o tratamento de acidentes com animais peçonhentos. Na época, o único soro disponível era desenvolvido a partir do veneno da cobra naja e não apresentava eficácia contra picadas de serpentes brasileiras. Ao demonstrar que diferentes peçonhas exigiam soros específicos, desenvolveu os primeiros soros antiofídicos eficazes para essas espécies, consolidando o Instituto Butantan como referência internacional. 

Na física, César Lattes projetou o Brasil no cenário científico internacional ao participar da descoberta experimental do méson pi, partícula subatômica fundamental para a compreensão da força nuclear forte, responsável por manter prótons e nêutrons unidos no núcleo atômico. A confirmação dos resultados, obtida em experimentos realizados no Monte Chacaltaya, na Bolívia, consolidou seu nome entre os grandes pesquisadores do século XX. 

Na biologia, Bertha Lutz destacou-se como uma das mais importantes pesquisadoras brasileiras do século XX. Seus estudos sobre a fauna nacional contribuíram significativamente para a zoologia, desenvolvidos ao longo de sua atuação no Museu Nacional. Paralelamente à carreira científica, tornou-se uma referência na defesa dos direitos das mulheres, atuando em pautas como a igualdade de gênero e o direito ao voto feminino. Em 1945, representou o Brasil na conferência que deu origem à Organização das Nações Unidas (ONU), demonstrando que a produção de conhecimento também pode impulsionar importantes transformações sociais. 

Esses nomes representam apenas uma pequena parcela da história da ciência brasileira. O legado deixado por esses e tantos outros pesquisadores continua sendo ampliado por novas gerações que, em centros de pesquisa, laboratórios, universidades e instituições de todo o país, seguem contribuindo para o desenvolvimento científico brasileiro. 

Ciência também é cultura 

A ciência, em toda a sua extensão, inspira diferentes formas de expressão e pode ser traduzida para os mais diversos formatos, aproximando o conhecimento de públicos distintos. Ela inspira narrativas, desperta curiosidade e amplia a compreensão sobre o mundo. 

O filme Interestelar (2014) é um exemplo dessa aproximação. A produção utiliza conceitos reais da física para construir uma narrativa sobre tempo, gravidade e sobrevivência. Do mesmo diretor, Christopher Nolan, Oppenheimer (2023) aborda os dilemas éticos envolvidos em um dos capítulos mais marcantes da história da ciência: o desenvolvimento da bomba atômica. Já Perdido em Marte (2015) combina exploração espacial e botânica ao acompanhar um astronauta que precisa recorrer ao conhecimento científico para sobreviver sozinho no planeta vermelho. Mais recentemente, Devoradores de Estrelas reúne áreas como astrofísica, biologia e linguística em uma narrativa que coloca a colaboração entre diferentes campos do conhecimento no centro da história. 

Na televisão, Cosmos, apresentada inicialmente por Carl Sagan e, décadas depois, por Neil deGrasse Tyson, despertou o interesse de milhões de pessoas pela astronomia e pela divulgação científica, influenciando diferentes gerações. 

Na literatura, Carl Sagan apresenta, em O Mundo Assombrado pelos Demônios, uma defesa do pensamento crítico e do método científico como ferramentas essenciais para compreender o mundo e enfrentar a desinformação em uma sociedade hiperconectada. 

Mais do que laboratórios, pesquisadores e grandes descobertas, a ciência está presente na forma como interpretamos a realidade, solucionamos problemas e construímos conhecimento. Ela inspira histórias, estimula o pensamento crítico e nos convida a compreender melhor o mundo ao nosso redor. Celebrar o Dia Nacional da Ciência é celebrar a curiosidade, a busca pelo conhecimento e um legado construído coletivamente. 

Fontes de pesquisa: 

Academia Brasileira de Ciências (ABC). 18 cientistas brasileiros. Disponível em: https://abc.org.br/wp-content/uploads/2024/11/doc-6869.pdf 

Academia Brasileira de Ciências (ABC). Ciência e sociedade: da Torre de Marfim às Pontes de Marfim (2013). Disponível em: https://www.abc.org.br/2013/07/23/ciencia-e-sociedade-da-torre-de-marfim-as-pontes-de-marfim/ 

Carl Sagan. O Mundo Assombrado pelos Demônios: a ciência vista como uma vela no escuro. Companhia das Letras, 1996. 

Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). História. Disponível em: https://fiocruz.br/historia 

Guenther, Lars; Kunert, Jessica; Goodwin, Bernhard. My New Colleague, ChatGPT? How German Science Journalists Perceive and Use (Generative) Artificial Intelligence. Journalism Practice, 2025. 

Instituto Butantan. Histórico. Disponível em: https://butantan.gov.br/institucional/historico 

Instituto Nacional de Pesquisas do Pantanal (INPP). Dia Nacional da Ciência e do Pesquisador Científico (2024). Disponível em: https://www.gov.br/inpp/pt-br/noticias/dia-nacional-da-ciencia-e-do-pesquisador-cientifico 

Kessler, Sabrina Heike; Mahl, Daniela; Schäfer, Mike S.; Volk, Sophia C. Science Communication in the Age of Artificial Intelligence. Journal of Science Communication, 2025. 

Neil deGrasse Tyson. Pronunciamento durante a March for Science, Washington, D.C., 22 de abril de 2017. 

Novo, Benigno Nunez. A importância da ciência, tecnologia e inovação em tempos de pandemia para a sociedade. Brasil Escola – Meu Artigo, 2020.

Mateus Soares é técnico em meio ambiente e graduando em Licenciatura em Ciências Biológicas. Atua na área de anatomia patológica. Formado em Jornalismo, escreve sobre ciência, tecnologia e jogos.

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