Mais de cinco décadas após Stonewall, o Brasil segue como o país que mais mata pessoas trans no mundo. A data também é um termômetro de quanto falta para cumprir a meta global de inclusão social 

Em 28 de junho de 1969, a polícia invadiu o bar Stonewall Inn, em Nova York, numa batida rotineira contra a clientela LGBTQIA+ do local. Dessa vez, a comunidade resistiu, e os confrontos que se seguiram deram origem, um ano depois, às primeiras Paradas do Orgulho. Desde então, a data tornou-se símbolo de luta por reconhecimento, mas também lembrete de que direitos básicos ainda estão em disputa em boa parte do mundo, Brasil incluído. 

Um instrumento pouco associado à sigla LGBTQIA+ ajuda a medir essa distância: o Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS) 10 da ONU, sobre Redução das Desigualdades. Sua meta central (a 10.2) é garantir, até 2030, inclusão social, econômica e política independentemente de sexo, raça, religião ou “outra condição”, categoria que organismos como PNUD e UNESCO interpretam como incluindo orientação sexual e identidade de gênero. Na prática, isso envolve quem entra e permanece na escola, quem é chamado para uma entrevista de emprego, quem recebe saúde sem constrangimento e quem tem segurança para circular nas ruas. 

Os números que sustentam o alerta 

Até pouco tempo, o Brasil tinha um problema de dados: pesquisas oficiais não perguntavam sobre orientação sexual e identidade de gênero, tornando a desigualdade LGBTQIA+ estatisticamente invisível. Isso começou a mudar a partir de 2024, quando o IBGE passou a incluir essas perguntas em levantamentos como a Pesquisa Nacional de Saúde e, progressivamente, na PNAD Contínua

Enquanto essa lacuna se fecha, a violência letal continua sendo o indicador mais bem documentado e mais grave. Em 2025, o Brasil manteve o primeiro lugar no ranking mundial de assassinatos de pessoas trans e travestis, com pelo menos 80 mortes registradas, segundo a 9ª edição do dossiê da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra). Houve queda de 34% em relação a 2024, mas o país segue como o mais violento do mundo para esse grupo, posição que ocupa há quase duas décadas. 

A própria Antra recomenda cautela com a queda: para a presidenta da entidade, Bruna Benevides, o número menor reflete aumento da subnotificação, retração da cobertura midiática e descrédito das pessoas trans nas instituições de segurança, não uma melhora real, segundo reportagem da CNN Brasil sobre o dossiê. As tentativas de homicídio, aliás, subiram de 57 para 75 no período. Das vítimas com raça identificada, ao menos 70% eram pretas ou pardas, padrão que se repete desde 2017 e evidencia a sobreposição entre racismo e transfobia. A maioria dos crimes ocorre em espaços públicos do interior, à noite, e segue impune na maior parte dos casos. 

No campo legal, o Brasil avançou: desde 2011 o STF reconhece a união estável entre pessoas do mesmo sexo como entidade familiar, e desde 2019 enquadra a LGBTfobia como crime de racismo. Mas a aplicação ainda falha. Um estudo da FGV com o Ministério dos Direitos Humanos encontrou, em 71 processos analisados, apenas 23 que citavam a decisão do STF, e indenizações cíveis com valor médio de R$ 13.413, considerado baixo pela própria pesquisa. No mercado de trabalho, pesquisas citadas pelo portal jurídico Migalhas apontam que cerca de 33% das empresas brasileiras não promovem pessoas LGBTQIA+ a cargos de chefia, mesmo com políticas de diversidade em expansão. 

Uma história, muitos obstáculos 

Atrás de cada estatística há uma trajetória. É comum, em relatos coletados por organizações como a Antra, a história de mulheres trans expulsas de casa na adolescência, que abandonam a escola precocemente e acabam empurradas para a informalidade ou o trabalho sexual, justamente o grupo mais exposto à violência letal. Mas também é cada vez mais frequente, em universidades públicas brasileiras, a trajetória de estudantes trans que conseguem usar o nome social desde a matrícula, política adotada por diversas instituições desde os anos 2010. Núcleos de apoio à diversidade, como o da Unifesp, relatam que essa medida simples reduz evasão e aumenta a permanência estudantil. Os dois exemplos mostram como o acesso (ou a negação) a educação e trabalho decide se a trajetória será de vulnerabilidade ou de autonomia. 

O que falta para a conta fechar 

A distância entre lei e cotidiano é o principal desafio apontado por pesquisadores e organizações da sociedade civil. Não basta criminalizar a LGBTfobia se a Justiça não aplica a decisão; não basta haver política de diversidade corporativa se a chefia continua, na prática, fechada para pessoas trans; não basta um dado existir se ele não chega a quem formula política pública. 

É aqui que entram os pilares do ODS 10: educação que não expulsa quem é diferente, saúde sem discriminação, cultura como espaço de representação real e dados públicos confiáveis, sem os quais nenhuma política consegue medir se funciona. Universidades têm papel central tanto na produção de conhecimento sobre o tema quanto em medidas práticas, como o nome social. Empresas são cobradas a ir além de campanhas no mês do Orgulho e investir em contratação e ascensão profissional concretas. E a sociedade civil continua sendo a principal produtora de dados sobre violência, suprindo uma lacuna que o Estado só começou a preencher recentemente. 

Reduzir desigualdades, como propõe o ODS 10, não é meta abstrata: é soma de decisões concretas. Uma matrícula com nome social aceito, uma vaga de chefia preenchida sem preconceito, uma sentença que de fato aplica a lei, um dado que finalmente existe numa pesquisa do IBGE. O Orgulho de 28 de junho continua sendo festa. Mas, no Brasil de 2026, ele também é, inevitavelmente, um número, e a aposta de que essa estatística possa, ano a ano, contar uma história diferente. 

Para ir além: indicações culturais 

Filmes e documentários: Madame Satã (2002), de Karim Aïnouz, sobre o ícone underground da Lapa carioca dos anos 1930; Hoje Eu Quero Voltar Sozinho (2014) e Pequeno Segredo (2016), produções brasileiras sobre identidade e afeto; Paris is Burning (1990), clássico sobre a cultura ballroom negra e latina nos EUA; Disclosure (2020, Netflix), sobre representação trans no audiovisual. 

Livros: Travesti: A Invenção do Feminino, de Berenice Bento; Stonewall, de Martin Duberman; Pajubá, de Davi Gabriel; Falange Canalha, de Jean Wyllys. 

Artistas e produções brasileiras: Linn da Quebrada e Liniker, na música; Drag Race Brasil, cultura drag nacional. 

Exposições: acervo permanente do Museu da Diversidade Sexual, em São Paulo (primeiro museu de Estado dedicado ao tema na América Latina). 

Fontes consultadas: ANTRA, STF, IBGE, CNN Brasil, Nexo Jornal, Agência Brasil, Migalhas, IPEA e literatura acadêmica indexada em SciELO, Redalyc e DOAJ. 

Lavínia de Arruda Rezende é graduanda do curso de Jornalismo

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