
Por Ana Beatriz Prudente Alckmin
Antes das bandeiras, antes dos mapas, antes das fronteiras desenhadas pelos homens e reconhecidas pelos Estados, existia o caminho. E sobre o caminho existia o ser humano. A humanidade nasceu em movimento. Os primeiros homens caminharam pela terra guiados pelas estrelas, pelos rios, pelas estações e pela esperança silenciosa de encontrar sobrevivência, abrigo e futuro. Durante milênios, o homem foi nômade não apenas por necessidade, mas porque o movimento faz parte da própria condição humana. Foi caminhando que a humanidade descobriu continentes, construiu civilizações, encontrou novas culturas e reinventou a si mesma inúmeras vezes ao longo da história. Mais tarde, surgiram as cidades, os reinos, os Estados nacionais e as fronteiras. O homem passou a fincar raízes, a construir pertencimentos e a chamar determinados lugares de lar. Ainda assim, mesmo diante das muralhas, dos documentos e das divisões políticas, o ser humano jamais deixou de se mover. Porque existe algo profundamente humano no ato de partir, atravessar e recomeçar. A imigração, portanto, não deve ser vista como uma ruptura da ordem natural do mundo, mas como uma continuação da própria história da humanidade, uma história escrita pelos passos daqueles que, desde os tempos mais antigos, seguiram adiante em busca de vida, dignidade e esperança.
É importante compreender que muitos dos Estados nacionais que hoje conhecemos são relativamente recentes na história da humanidade. Diversos países africanos, por exemplo, consolidaram suas independências apenas ao longo do século XX, especialmente após os processos de descolonização ocorridos após a Segunda Guerra Mundial. Isso significa que muitos desses Estados ainda estão em processo de construção institucional, fortalecimento democrático, consolidação de identidades nacionais e desenvolvimento econômico. Trata-se de nações jovens, que enfrentam os desafios próprios de países que ainda estão estruturando suas bases políticas, sociais e educacionais diante de um cenário internacional profundamente desigual.
Nesse contexto, é fundamental compreender que as fronteiras nacionais modernas nem sempre correspondem às identidades étnicas, linguísticas ou culturais existentes nos territórios. Em muitos casos, especialmente na África e em partes da Ásia, as fronteiras foram desenhadas artificialmente por potências coloniais europeias, sem respeitar as complexidades locais. Esse fenômeno gerou tensões históricas que permanecem até os dias atuais e ajuda a explicar muitos dos conflitos contemporâneos que recebem pouca atenção da imprensa internacional.
Na mesma perspectiva dos países jovens, encontra-se também o Estado de Israel. Embora o vínculo do povo judeu com a região do Levante seja milenar, o Estado moderno
de Israel foi oficialmente fundado em 1948, tornando-se igualmente um país jovem dentro da dinâmica contemporânea das nações. Como toda sociedade em formação e constante transformação, Israel possui desafios internos, sociais, políticos e culturais próprios de um Estado moderno ainda recente. Inclusive, Israel possui muito a aprender com os países africanos, sobretudo em experiências de resiliência social, diversidade cultural, reconstrução institucional e convivência entre múltiplas identidades étnicas e religiosas.
Nesse debate, torna-se igualmente necessário compreender o que é o sionismo de maneira histórica e acadêmica. O sionismo surgiu no final do século XIX como um movimento nacionalista judaico que defendia o direito do povo judeu à autodeterminação em sua terra ancestral. Assim como diversos outros movimentos nacionais surgidos na Europa, na Ásia e na África, o sionismo se organizou em torno da ideia de soberania nacional, preservação cultural e segurança coletiva de um povo historicamente perseguido ao longo dos séculos. Reduzir o sionismo a uma definição simplista de colonialismo ou racismo ignora a complexidade histórica do povo judeu, sua ancestralidade milenar na região do Levante e os inúmeros registros arqueológicos, religiosos, históricos e culturais que demonstram a continuidade da presença judaica naquela terra ao longo da história.
Uma vez esclarecido sobre os países, suas fronteiras e seus movimentos nacionais, vamos mergulhar agora no fenômeno da imigração. Vivemos atualmente uma das maiores eras de deslocamentos humanos desde o século XX. Milhões de pessoas deixam seus países todos os
anos em busca de segurança, estabilidade econômica, liberdade religiosa, proteção dos direitos humanos e sobrevivência climática. A imigração contemporânea tornou-se um fenômeno profundamente complexo e multifatorial, atravessado por guerras, perseguições políticas, crises econômicas, fome, mudanças climáticas e colapsos institucionais.
Entre os fenômenos mais recentes, destacam-se os deslocamentos provocados pelas mudanças climáticas. Secas extremas, desertificação, enchentes, aumento do nível do mar e eventos climáticos severos têm forçado populações inteiras a abandonarem suas regiões de origem. Em muitos países africanos e asiáticos, comunidades agrícolas perderam completamente suas condições mínimas de sobrevivência devido às alterações ambientais. Especialistas internacionais já utilizam o termo “refugiados climáticos” para se referir a pessoas que são obrigadas a migrar em razão das consequências ambientais agravadas pelo aquecimento global.
Além disso, milhões de pessoas seguem deixando seus países devido à ausência de garantias fundamentais de direitos humanos. Regimes autoritários, perseguições religiosas, violência política, repressão às minorias e violações sistemáticas da dignidade humana continuam produzindo grandes fluxos migratórios em diversas partes do mundo. Em muitos casos, esses deslocamentos recebem pouca atenção da mídia internacional, especialmente quando ocorrem em regiões da África e da Ásia que historicamente permanecem invisibilizadas no debate público global.
Os conflitos armados contemporâneos também desempenham um papel central nesses deslocamentos forçados. Enquanto algumas guerras recebem ampla cobertura da imprensa, inúmeras outras crises humanitárias permanecem praticamente desconhecidas pela população mundial. Conflitos no Sudão, na República Democrática do Congo, em Mianmar, no Iêmen e em diversas regiões do Sahel africano têm provocado deslocamentos massivos de civis, destruição de comunidades inteiras e crises humanitárias de enormes proporções. Muitas dessas populações atravessam fronteiras sem qualquer estrutura de acolhimento, enfrentando fome, precariedade e extrema vulnerabilidade social.
Nesse cenário global, o Brasil ocupa uma posição singular e historicamente relevante. O país construiu sua identidade nacional a partir do encontro entre múltiplos povos, culturas e fluxos migratórios. Italianos, japoneses, sírios, libaneses, judeus, portugueses, bolivianos, haitianos, venezuelanos e tantos outros grupos ajudaram a formar a diversidade humana brasileira. Atualmente, segundo dados oficiais do Observatório das Migrações Internacionais e do Ministério da Justiça, o Brasil continua recebendo milhares de imigrantes e refugiados de diferentes nacionalidades, com destaque recente para venezuelanos, haitianos, bolivianos, cubanos, afegãos, sírios e cidadãos de diversos países africanos.
O Brasil vive, portanto, uma oportunidade histórica. Mais do que apenas acolher pessoas em situação de vulnerabilidade, o país possui a chance de formar uma nova geração de brasileiros: cidadãos que tragam consigo diferentes culturas, idiomas, experiências e visões de mundo, contribuindo para o fortalecimento da pluralidade nacional. Em um mundo marcado por intolerâncias, deslocamentos forçados e crises humanitárias, o acolhimento responsável, humanitário e institucionalmente organizado dos imigrantes pode representar não apenas um compromisso ético, mas também um importante projeto de futuro para a própria sociedade brasileira.
Ana Beatriz Prudente Alckmin é pedagoga formada pela Universidade de São Paulo, presidente do projeto educacional socioambiental Zerah Platform e embaixadora do Me Too Brasil para questões relacionadas à comunidade judaica. É autora do livro Ela, Sua Gata e Tel Aviv (D’Plácido, 2025).












