
Por Maurício Paiva
Todos os anos, em 20 de junho, o mundo celebra o Dia Mundial do Refugiado, uma data instituída pela Organização das Nações Unidas (ONU) para reconhecer a força, a coragem e a resiliência de milhões de pessoas que foram obrigadas a deixar seus países em busca de proteção e segurança.
Embora o deslocamento humano acompanhe a história da humanidade, os números atuais revelam uma realidade sem precedentes. Segundo dados do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR), mais de 120 milhões de pessoas vivem atualmente em situação de deslocamento forçado em decorrência de guerras, perseguições políticas, conflitos armados, violações de direitos humanos e crises ambientais.
Por trás desses números existem histórias. Vidas de famílias separadas, de comunidades interrompidas e de trajetórias que precisaram ser reconstruídas em novos territórios. Mas existem também histórias de resistência, reinvenção e contribuições culturais, sociais e econômicas que enriquecem as sociedades que acolhem essas pessoas.
No Brasil, o assunto vem chamando mais atenção com o tempo. Nos últimos anos, milhares de refugiados chegaram ao país, vindos de nações como Venezuela, Haiti, Afeganistão, Síria e Ucrânia. Quando aqui, precisam lidar com barreiras diversas: dominar um idioma novo aparece logo no início, adaptar-se a costumes distintos pesa bastante também. Serviços básicos nem sempre são fáceis de alcançar. Trabalho não é algo que surge rápido para todos. Reconectar laços sociais exige paciência diária.
Aqui entra em cena o plano mundial chamado Agenda 2030, lançado pela ONU. Focado especialmente no décimo objetivo, ele aponta caminhos para diminuir abismos entre pessoas. Não importa quem você é: seu lugar de nascimento, status legal ou crenças influenciam pouco nisso. Inclusão vira palavra-chave, tocando áreas como economia, sociedade e participação política. Diversidade ganha espaço, desde que as diferenças não criem barreiras maiores. Assim, o esforço coletivo tenta nivelar chances ao longo
do tempo. Pessoas antes deixadas de lado passam a ter voz ativa nesse processo mais amplo.
Falar de gente em situação de refúgio envolve ir além de um teto sobre a cabeça. Acesso à escola, cuidados médicos, moradia fixa, emprego justo, vida cultural e lugar na sociedade fazem parte disso também. O ponto central é montar cenários onde elas entram realmente no mapa, não só recebidas, mas vistas como detentoras de direitos. Histórias delas mesmas sendo contadas por elas.
Nesse processo, a cultura desempenha um papel essencial.
Não se trata só de diversão. Cultura serve como ponto de encontro, troca franca, senso de pertencimento. Por meio da música ou dos livros, passando por filmes, pratos típicos, pinturas e danças nas ruas, gente vinda de lugares distintos descobre jeitos de mostrar o que viveu, guardar histórias antigas e formar laços com quem está ao lado agora.
Pessoas refugiadas mudam o jeito como vemos os lugares por onde passam, introduzindo maneiras diferentes de pensar e criar. Mesmo com tanta ligação entre todos hoje em dia, entender essas diferenças abre caminho para descobrir algo novo junto.
Pode ser nas ruas, escolas ou centros culturais, gente de toda origem encontra na arte um jeito de se entender melhor. Enquanto oficinas abrem espaço para trocas, festivais misturam sabores, sons e histórias sem hierarquia. Exposições contam vivências distintas lado a lado. Projetos com livros caminham junto com vizinhos. Juntos, todos esses fazeres constroem laços onde antes havia distância.
Quando o mundo parece se dividir cada vez mais, abrigar gente em fuga vira questão de dignidade. Fugir não é decisão leve, muito menos espontânea, envolve deixar para trás quem se ama, lugares conhecidos, tudo aquilo que dava sentido ao dia a dia. Fora isso, pouca gente arrisca tudo sem estar com a vida realmente ameaçada. A verdade é que a segurança nem sempre está onde nascemos. Por vezes, ela precisa ser buscada longe, bem distante do que seria o lugar certo.
Por isso, o Dia Mundial do Refugiado é também um convite à reflexão. Como podemos construir cidades mais acolhedoras? Como fortalecer políticas públicas de inclusão? Como a cultura pode contribuir para criar espaços de convivência mais diversos e democráticos?
As respostas para essas perguntas passam pelo reconhecimento da dignidade humana e pelo compromisso coletivo de não deixar ninguém para trás.
O dia 20 de junho vai além de um marco no calendário: ele aponta para algo coletivo. O acolhimento não cai do céu, pertence a todos. Já a variedade de culturas? Em vez de travar caminhos, ela os amplia. O diferente constrói mais do que separa.
Para saber mais:
Filme
Human Flow (2017), dirigido por Ai Weiwei, acompanha a realidade de pessoas refugiadas em diferentes partes do mundo e apresenta um olhar sensível sobre as consequências do deslocamento forçado.
Livro
O Estrangeiro, de Albert Camus, embora não trate diretamente do refúgio contemporâneo, provoca reflexões importantes sobre pertencimento, identidade e deslocamento.
Organização
O ACNUR disponibiliza informações, pesquisas e relatos sobre a situação de pessoas refugiadas em todo o mundo, contribuindo para ampliar o conhecimento e combater estigmas relacionados ao tema. Promover o acolhimento, valorizar a diversidade e reduzir desigualdades são caminhos fundamentais para a construção de sociedades mais justas, humanas e inclusivas.
Fontes consultadas:
ACNUR (Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados). Tendências Globais: Deslocamento Forçado em 2024. Disponível em: www.acnur.org
ONU. Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável. Disponível em: brasil.un.org
ONU. Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 10 – Redução das Desigualdades. Disponível em: brasil.un.org
CONARE (Comitê Nacional para os Refugiados). Refúgio em Números. Disponível em: www.gov.br/mj
Lei nº 9.474/1997 – Estatuto dos Refugiados no Brasil. Disponível em: www.gov.br/planalto
UNESCO. Re|Pensar as Políticas Culturais: Criatividade para o Desenvolvimento. Disponível em: www.unesco.org
WEIWEI, Ai (dir.). Human Flow. Estados Unidos/Alemanha: Amazon Studios, 2017. Filme documental.
Maurício Paiva é articulador cultural, comunicador e ativista dos direitos humanos. Integra o Coletivo LGBT+ de Santa Luzia, onde atua na organização das Paradas do Orgulho LGBT+ do município, promovendo cidadania e visibilidade para a população LGBTQIA+. Também atua junto às bibliotecas comunitárias na democratização do acesso ao livro, à leitura e à educação, trajetória que contribuiu diretamente para a aprovação da Lei do Plano Municipal do Livro, Leitura, Literatura e Bibliotecas (PMLLLB) de Belo Horizonte. Foi conselheiro municipal de Cultura de Belo Horizonte, representando o segmento de Literatura, Livro, Leitura e Bibliotecas, e recebeu reconhecimento da Academia Luziense de Letras e Artes (ALUZ) por sua contribuição à educação e à democratização do acesso ao livro.












