Por Isabelle Santos de Souza

Celebrado anualmente, o dia 18 de maio vai muito além de uma simples data comemorativa. Comemora-se o Dia Internacional dos Museus, representando um marco global de reflexão sobre o impacto das instituições museais na sociedade. Mais do que uma efeméride cultural, a data propõe uma análise profunda sobre o papel dessas instituições na estrutura das cidades contemporâneas. Em um mundo que enfrenta desafios urbanos crescentes, a conexão entre o universo museal e o Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS) 11 da Organização das Nações Unidas, torna-se não apenas pertinente, mas estratégica. Museus não são meras cápsulas do tempo, eles são laboratórios de cidadania e eixos de preservação que sustentam a identidade de metrópoles que, muitas vezes, correm o risco de se tornarem genéricas e desumanizadas.

A meta 11.4 do ODS 11 é clara ao estabelecer a necessidade de fortalecer esforços para proteger e salvaguardar o patrimônio cultural e natural do mundo. No contexto brasileiro, essa missão ganha contornos de urgência. O museu atua como o guardião da “memória viva” de um território, servindo de contrapeso ao ritmo frenético da urbanização desordenada. Quando uma cidade preserva seus espaços culturais, ela não está apenas guardando objetos, mas garantindo que as futuras gerações tenham acesso às raízes que explicam o presente. O patrimônio, portanto, é um recurso não renovável da inteligência urbana, conceito que o urbanista Jan Gehl explora em sua obra fundamental Cidades para Pessoas, ao demonstrar como a cultura e o design transformam a vida pública.

A sustentabilidade de uma cidade também passa, obrigatoriamente, pela inclusão e pela democratização do acesso aos espaços públicos. Historicamente vistos como “templos” de uma alta cultura distante da realidade popular, os museus têm passado por uma metamorfose necessária. Hoje, o conceito de “museologia social” ganha força, entendendo que o museu deve ir até a comunidade, e vice-versa. Exemplo como o Museu da Maré, no Rio de Janeiro,

demonstra como a preservação da história contribui diretamente para a autoestima de seus moradores e para a resiliência daquela comunidade. Essa ruptura de barreiras entre o espectador, a arte e o espaço urbano foi antecipada por artistas como Hélio Oiticica, cujas obras convidam à participação direta do cidadão.

Ao caminhar pelo centro histórico de uma grande capital, é possível perceber como a presença de um museu aberto muda a dinâmica da rua. Onde antes havia apenas pressa, barulho e indiferença, o museu cria uma “ilha” de contemplação e silêncio. É essa pausa que humaniza o concreto e dá sentido ao deslocamento urbano. Pode-se enxergar a sustentabilidade de uma cidade como a sua capacidade de permitir que seus habitantes se reconheçam nela, e os museus são os espelhos mais nítidos que possuímos. Essa conexão entre a arte e a preservação da vida e dos territórios é magistralmente ilustrada no documentário O Sal da Terra, sobre o fotógrafo Sebastião Salgado, que revela como o olhar artístico pode regenerar nossa percepção do mundo.

Além do impacto social, a infraestrutura dos museus modernos também dialoga diretamente com as metas ecológicas do ODS 11. O uso de energias renováveis e projetos arquitetônicos que privilegiam a luz natural colocam essas instituições na vanguarda da arquitetura sustentável. Um exemplo emblemático dessa síntese entre arte contemporânea, museologia e preservação botânica em larga escala é o Instituto Inhotim, em Minas Gerais. Ao adotar práticas verdes, o museu educa pelo exemplo, mostrando que a preservação do passado e a proteção do futuro são duas faces da mesma moeda: preserva-se a cultura para dar sentido à vida e preserva-se o meio ambiente para garantir que a vida continue. Em última análise, o Dia Internacional dos Museus sob a ótica da sustentabilidade urbana nos lembra que cidades inteligentes são aquelas ricas em memória, diversidade e acessibilidade. O museu é o coração pulsante dessa inteligência coletiva. Ele nos ensina que, para avançar em direção a um futuro sustentável, é preciso, primeiro, compreender profundamente de onde viemos. Que este 18 de maio sirva para nos reconectar com os espaços que guardam nossa essência e para cobrar

políticas públicas que entendam a cultura como um pilar indissociável do desenvolvimento de nossas cidades.

Fontes:

Dia Internacional dos Museus 2024: Museus para a Educação e a Investigação. Disponível em: https://icom.museum/. Acesso em: 01 mai. 2026.

GEHL, Jan. Cidades para pessoas. São Paulo: Perspectiva, 2013.

Museus e Sustentabilidade: O papel das instituições na Agenda 2030. Brasília: Ibram, 2021.

Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 11: tornar as cidades e os assentamentos humanos inclusivos, seguros, resilientes e sustentáveis. Nações Unidas Brasil, 2015. Disponível em: https://brasil.un.org/pt-br/sdgs/11. Acesso em: 05 mai. 2026.

SANTOS, Milton. A natureza do espaço: técnica e tempo, razão e emoção. São Paulo: Editora da USP, 2006.

Isabelle Santos de Souza graduou-se em Comunicação Social e cursa pós-graduação em Arte, História e Educação nos Museus Paulistas. Integra o grupo de voluntários da Unibes.

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