
Por Ciça Cordeiro
“A gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e arte.”
No dia 21 de setembro, celebramos o Dia Nacional de Luta da Pessoa com Deficiência. Nas últimas décadas, o Brasil avançou na garantia de direitos, e um dos principais marcos desse processo foi a Lei Brasileira de Inclusão – LBI, (Lei nº 13.146/2015), que tem como base a Convenção da ONU sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência.
A LBI assegura direitos fundamentais em áreas como saúde, educação, trabalho, moradia, cultura, esporte, turismo, lazer, transporte e mobilidade. Mas, para que esses direitos saiam do papel e possam ser exercidos com autonomia e participação, existe uma condição essencial: a acessibilidade.
Segundo o Censo 2022, divulgado pelo IBGE, o Brasil tem 14,4 milhões de pessoas com deficiência com dois anos ou mais – 7,3% dessa população. São milhões de brasileiros que estudam, trabalham, viajam, utilizam serviços de saúde, hospedam-se em hotéis, vão a restaurantes, museus, teatros e aeroportos e participam, como qualquer outra pessoa, dos mais diversos espaços da sociedade.
Não estamos falando, portanto, de uma pequena parcela da população. Ainda assim, muitas dessas pessoas continuam sendo tratadas como se fossem invisíveis.
Sou uma mulher com deficiência e trabalho há anos com acessibilidade e inclusão. Além da minha própria experiência, compartilho a vida com meu marido, que também é uma pessoa com deficiência. Por isso, acessibilidade não é para mim apenas um tema profissional, objeto de estudo ou conteúdo de uma apresentação. Ela atravessa a minha vida cotidiana.
E é justamente no cotidiano que percebemos o quanto ainda precisamos avançar.
Temos legislação, normas técnicas, políticas públicas, tecnologias assistivas e cada vez mais informação disponível. A própria LBI reforçou uma mudança fundamental de perspectiva: a deficiência não pode ser compreendida apenas a partir das
características de uma pessoa, mas também das barreiras que limitam sua participação na sociedade.
E, entre essas barreiras, há uma que continua presente mesmo quando rampas, elevadores, recursos de comunicação ou outras soluções de acessibilidade já existem: a barreira atitudinal.
São atitudes e comportamentos que impedem ou dificultam a participação das pessoas com deficiência em igualdade de condições e oportunidades.
Talvez esteja justamente aí um dos nossos maiores desafios.
Quando falta conhecimento
Ainda hoje, pessoas com deficiência vivem situações que revelam despreparo no atendimento: profissionais que falam com o acompanhante em vez de falar diretamente com elas, pessoas que tocam em uma cadeira de rodas sem perguntar, banheiros acessíveis usados indevidamente ou equipes que não sabem como oferecer assistência.
Na maioria dessas situações, não falta apenas boa vontade. Falta conhecimento.
E foi observando e vivendo experiências como essas que compreendi cada vez mais que acessibilidade também passa pela formação das pessoas. Não basta tornar um espaço acessível se quem trabalha nele não estiver preparado para receber quem chega.
Na saúde, isso significa respeitar a autonomia do paciente, falar diretamente com ele e perguntar antes de ajudar.
Na educação, não basta assegurar a matrícula: é preciso eliminar barreiras para garantir participação e aprendizagem.
Nos transportes, estruturas e equipamentos acessíveis precisam estar acompanhados de equipes preparadas para atender com segurança e respeito.
No turismo e na hotelaria, a experiência acessível começa antes da chegada e passa pela informação, pelo atendimento, pela comunicação e por toda a jornada do hóspede.
E na cultura, acessibilidade significa assegurar participação plena – não apenas na plateia, mas também no palco, nos bastidores, na produção e na criação. Recursos de acessibilidade são fundamentais, mas o preparo das equipes também faz parte dessa experiência.
É por isso que acredito cada vez mais que não basta tornar lugares acessíveis.
Precisamos tornar as relações acessíveis.
Informação transforma atitudes
Quando falamos de deficiência, ninguém precisa conhecer previamente todas as características de todas as pessoas. Mas podemos aprender algo essencial: não presumir, perguntar, ouvir e respeitar.
_ “Você precisa de ajuda?”
_ “Como posso ajudar?”
Perguntas simples podem evitar atitudes invasivas, constrangimentos e decisões tomadas em nome da outra pessoa.
Talvez essa seja uma das reflexões mais importantes deste 21 de setembro. Celebrar conquistas e reconhecer direitos é fundamental, mas também precisamos olhar para o que acontece no cotidiano: no atendimento, na escola, no consultório, no aeroporto, no hotel, no museu, no teatro e na rua.
Porque direitos só se tornam realidade quando chegam à vida das pessoas.
Hoje, uma parte importante do meu trabalho está justamente na formação de profissionais que atuam nesses espaços. E, quanto mais trabalho com diferentes equipes, mais percebo o poder do conhecimento para transformar atitudes.
Uma pessoa preparada atende melhor. Uma equipe preparada evita constrangimentos. Uma organização preparada deixa de improvisar diante da diversidade humana.
E uma sociedade que compreende a deficiência deixa de enxergar acessibilidade como favor. Afinal, ela é direito, não privilégio.
Há décadas, o lema “Nada sobre nós, sem nós!” representa uma conquista fundamental do movimento das pessoas com deficiência. Ele marcou o direito à participação, à voz e à presença – e abriu espaço para debates, políticas públicas e transformações sociais.
Mas, para mim, esse lema já não basta. Hoje, acredito em algo ainda mais direto:
“Nada sem nós.”
Simples assim. Direto assim. Forte assim.
Porque a questão não é apenas participar das decisões que dizem respeito às pessoas com deficiência. A verdadeira inclusão acontece quando políticas, serviços, produtos, cidades, tecnologias, processos e experiências são pensados desde o início para todas as pessoas – e isso inclui, de forma natural e inquestionável, as pessoas com deficiência.
Essa participação precisa acontecer em todas as dimensões da vida. Pessoas com deficiência são cidadãs, profissionais, estudantes, turistas, pacientes, artistas, público da cultura e também consumidoras. Têm necessidades, mas também desejos, preferências, escolhas e vontades.
E, lembrando a canção Comida, do grupo Titãs, não queremos apenas que as necessidades básicas sejam atendidas. Queremos também viver, escolher, consumir, viajar, nos divertir e ter acesso à arte e à cultura.
Ciça Cordeiro é jornalista, consultora em acessibilidade e inclusão, com atuação na formação de equipes para atendimento às pessoas com deficiência.












