Investir na Paz – Para todos, em todos os lugares, todos os dias

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Por Lucas Bastos Pinheiro 

Dia Internacional da Paz propõe uma reflexão sobre prevenção de conflitos, cooperação internacional e as condições necessárias para construir sociedades mais seguras. Existem palavras que parecem simples até tentarmos explicar o que realmente significam. Paz é uma delas. É o contrário da guerra? É poder viver sem medo? É possível discordar de alguém sem transformá-lo em inimigo? 

No dia 21 de setembro, essas perguntas ganham atenção especial com a celebração do Dia Internacional da Paz. Criada pela Assembleia Geral das Nações Unidas em 1981, a data passou, vinte anos depois, a ser também dedicada à não violência e ao cessar-fogo. Em 2026, o tema escolhido pela ONU é Investir na Paz – Para Todos, em Todos os Lugares, Todos os Dias. A proposta parte de uma compreensão ampla: paz não significa apenas ausência de guerras, mas também condições de segurança, dignidade, oportunidades e cooperação. O cenário internacional atual ajuda a explicar a relevância dessa discussão. Em 2025, foram registrados 65 conflitos armados com participação de Estados, segundo o Uppsala Conflict Data Program (UCDP), um programa de coleta de dados sobre violência organizada, sediado na Universidade de Uppsala, na Suécia. É o maior número desde o início da série histórica da instituição, em 1946. Treze desses conflitos alcançaram a classificação de guerra e aproximadamente 244,6 mil pessoas morreram em episódios de violência organizada ao longo do ano. Ao mesmo tempo, os investimentos militares continuam crescendo. Dados do Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo (SIPRI) indicam que os gastos militares globais chegaram a cerca de US$ 2,9 trilhões em 2025, marcando o 11º ano consecutivo de aumento. Na última década, o crescimento acumulado foi de 41%. 

Esses números ajudam a dimensionar os conflitos, mas não mostram todos os seus impactos. Guerras afetam o funcionamento de escolas, hospitais e serviços públicos, provocam deslocamentos populacionais e interrompem atividades econômicas e sociais. Também podem atingir patrimônios, manifestações culturais e formas de organização comunitária. Assim, a guerra deixa de ser apenas uma questão entre governos e passa a afetar diretamente a vida cotidiana. Talvez seja mais fácil identificar quando a paz termina do que definir quando ela começa. Um tratado pode encerrar oficialmente um conflito, mas o fim dos combates não resolve automaticamente as causas que contribuíram para a violência.  

Por isso, nas últimas décadas, as discussões internacionais sobre paz passaram a dedicar mais atenção à prevenção de conflitos e às condições necessárias para evitar a retomada da violência. 

A ONU mantém atualmente 11 operações de paz, com a participação de mais de 50 mil civis, policiais e militares. Essas missões podem atuar na proteção de populações civis, no apoio a processos políticos e na criação de condições para maior estabilidade. Construir a paz, no entanto, vai além da presença de forças internacionais. 

Em setembro de 2026, ao abordar o Dia Internacional da Paz, o secretário-geral da ONU, António Guterres, destacou a importância de investimentos em educação, saúde, alimentação, proteção social e instituições confiáveis, além de instrumentos como diplomacia e mediação. Essa perspectiva amplia a discussão. Segurança não depende exclusivamente de capacidades militares ou de acordos entre Estados, mas também de instituições capazes de atender às necessidades da população e oferecer canais para a resolução de divergências.  

Dessa forma, a paz pode ser pensada, portanto, em diferentes escalas: na escola, no espaço público, nas instituições políticas e nas relações entre grupos sociais. A maneira como uma sociedade responde à intolerância, à discriminação e aos conflitos internos também influencia sua capacidade de manter relações mais estáveis. Isso não significa que comportamentos individuais sejam capazes de resolver guerras complexas. Conflitos armados possuem causas históricas, políticas, econômicas e territoriais que exigem respostas igualmente complexas. A questão é reconhecer que a prevenção também depende da existência de mecanismos de diálogo e cooperação antes que as tensões se agravem. A campanha da ONU deste ano destaca os chamados “arquitetos cotidianos da paz”: pessoas que desenvolvem ações locais, fortalecem comunidades e criam espaços para o diálogo. Podem ser professores, lideranças comunitárias, voluntários, jornalistas, mediadores ou jovens envolvidos em projetos sociais. 

Em uma época em que conflitos internacionais também são acompanhados pelas telas dos celulares, esse papel assume novas dimensões. Imagens de guerras circulam rapidamente, muitas vezes acompanhadas de informações falsas, conteúdos fora de contexto e discursos que reforçam hostilidades entre grupos. 

Nesse ambiente, verificar informações antes de compartilhá-las e buscar compreender diferentes contextos também fazem parte de uma cultura voltada à convivência e ao diálogo. A cultura pode ajudar a compreender dimensões dos conflitos que não aparecem com a mesma clareza em estatísticas e relatórios. 

No cinema, Túmulo dos Vagalumes (Hotaru no Haka, 1988), dirigido por Isao Takahata, acompanha os irmãos Seita e Setsuko no Japão durante os meses finais da Segunda Guerra Mundial. Depois de perderem a casa em um bombardeio, os dois precisam lidar com a falta de alimentos, moradia e redes de apoio. O filme não coloca comandantes militares ou negociações diplomáticas no centro da narrativa. A guerra é apresentada a partir de situações cotidianas: encontrar comida, buscar abrigo, cuidar de familiares e tentar manter alguma rotina em meio à desestruturação provocada pelo conflito. Confira o trailer clicando aqui!  

Essa escolha permite observar a guerra por uma escala diferente. Enquanto análises internacionais costumam tratar de territórios, operações militares e decisões de governos, Túmulo dos Vagalumes mostra como essas decisões repercutem na vida de pessoas que não participam diretamente delas. A obra também contribui para outra reflexão importante: o fim dos combates não significa o desaparecimento imediato de seus efeitos. Deslocamentos, perdas familiares e materiais, insegurança alimentar, traumas, poluição ambiental, perseguições, entre tantas outras consequências, podem permanecer durante anos.  

Produções como essa ajudam a complementar os dados sobre conflitos, mostrando que seus impactos também atingem relações familiares, rotinas, espaços urbanos e formas de convivência. O Dia Internacional da Paz ocupa apenas uma data no calendário, mas sua proposta aponta para questões permanentes. Se conflitos podem ser resultado de tensões políticas, desigualdades, disputas territoriais e dificuldades de negociação acumuladas ao longo do tempo, a construção da paz também depende de ações contínuas. O 21 de setembro pode, portanto, servir não apenas para imaginar um mundo sem guerras, mas para refletir sobre quais instituições, políticas e formas de cooperação ajudam a prevenir conflitos e criar condições para sociedades mais seguras e estáveis. 

Lucas Bastos Pinheiro é estudante de Relações Internacionais, pesquisador e produtor de conteúdo, com atuação em projetos acadêmicos, culturais e de extensão. Integra o Núcleo de Extensão em Relações Internacionais (NURI), onde atua na produção de conteúdos, e coordena o Observatório Político Internacional. Também possui experiência no terceiro setor, com atuação na AVSI Brasil. Seus principais interesses estão na interseção entre relações internacionais, cultura e mercado editorial, especialmente em temas relacionados à diplomacia cultural, circulação internacional de livros e democratização do acesso à cultura. Lucas é voluntário da Unibes.    

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