
A USP 60+ e o direito de continuar aprendendo, criando e ocupando a cidade
Por Egídio Dorea
Em 1994, a psicóloga social Ecléa Bosi deu início ao programa da Universidade Aberta à Terceira Idade na Universidade de São Paulo. Seguia o exemplo da universidade para pessoas idosas de Toulouse, na França, e, no Brasil, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e da PUC de Campinas. Não copiou os modelos: inovou. Trouxe a intergeracionalidade para dentro de um ambiente estudantil juvenil e, pela primeira vez no país, reuniu estudantes de diferentes faixas etárias na mesma sala de aula universitária.
O que muitos ainda consideram temerário revelou-se um sucesso. Em ambiente controlado, sem hierarquias entre os grupos e com um objetivo comum, estereótipos e comportamentos discriminatórios recuam. A convivência entre gerações deixa de ser slogan e passa a ser prática cotidiana.
Além da intergeracionalidade, a Universidade Aberta à Terceira Idade — depois denominada USP 60+, novamente na tentativa de desarmar estereótipos — assenta-se em outros dois pilares. O da abertura: para participar de uma atividade, basta o interesse, sem exigência de formação prévia. E o da gratuidade, para alcançar os diversos extratos socioeconômicos. O que começou com algumas dezenas de vagas, conquistadas ao longo dos semestres pelas visitas incansáveis da professora Ecléa às unidades da USP, cresceu para quase 12 mil vagas em centenas de cursos, distribuídas pelos campi.
Há atividades da grade curricular que reúnem alunos 60+ e jovens da graduação; atividades culturais elaboradas especificamente para o público 60+; e atividades esportivas. Uma programação ampla, que tenta contemplar necessidades e desejos de uma população que, até as décadas de 1960 e 1970, ao envelhecer, deixava de existir socialmente.
Aprender, criar, pertencer
Participar de uma atividade na USP 60+, ou em outra universidade aberta à terceira idade, é ampliar aprendizados, fortalecer a autoestima, tecer uma rede social e melhorar a participação cidadã, a saúde física e a saúde mental. Esses e outros benefícios aparecem em estudos realizados no Brasil e no exterior. O direito de aprender continuamente está no Estatuto da Pessoa Idosa. Frequentar a USP 60+ é um exercício desse direito.
O programa também ultrapassou os muros da universidade. Desde o início da atual coordenação, há dez anos, parcerias com outras instituições foram estabelecidas; eventos e prêmios foram criados. O Simpósio de Envelhecimento Ativo da USP, já em sua oitava edição, reúne especialistas e público para discutir temas atuais da promoção do envelhecimento ativo e saudável.
Entre essas pontes está o Diálogos 60+, parceria com a Unibes Cultural. A cada dois meses, um especialista é convidado para um bate-papo sobre temas diversos — tecnologia, felicidade, menopausa, filosofia, solidão. O encontro transforma o espaço cultural em sala de conversa pública: o conhecimento acadêmico encontra a experiência vivida, e a longevidade deixa de ser assunto restrito a consultórios e congressos.
Há ainda o Prêmio Arte e Literatura USP 60+, que desde 2019 oferece aos participantes a oportunidade de exibir pinturas, gravuras, desenhos, esculturas e arte têxtil, além de contos, poesias, textos filosóficos e crônicas. As obras, selecionadas por dois corpos de jurados, ganham exposição física no Centro Cultural Maria Antonia. Envelhecer com arte é também envelhecimento saudável e ativo.
A campanha #SouMaisSessenta, parceria com a Secretaria Municipal da Pessoa Idosa de São Paulo e com o Metrô, busca conscientizar e combater o preconceito etário — o idadismo —, ainda altamente prevalente no Brasil e no mundo.
Sair da invisibilidade
A USP 60+ é um programa vinculado à Pró-Reitoria de Cultura e Extensão Universitária. Seu alcance deve-se ao apoio da Universidade como um todo — e à procura crescente por uma população que envelhece e deseja mais oportunidades de participação. Envelhecer precisa deixar de ser sinônimo de invisibilidade e exclusão.
Em um país com cerca de 37 milhões de pessoas com 60 anos ou mais, iniciativas como a USP 60+ e parcerias como a que se constrói com a Unibes Cultural são fundamentais para um envelhecimento saudável, criativo e digno. Cultura, nesse horizonte, não é adorno: é o modo de permanecer visível no mundo.
Egídio Lima Dórea é médico, professor e coordenador do programa USP 60+












