
Santos Dumont e a ética da inovação
Por Pedro Mastrobuono
Passei anos procurando aquilo que Santos Dumont havia deixado. Meu pós-doutorado em Antropologia Social nasceu de uma pergunta aparentemente simples: onde estava seu legado?
A resposta exigiu atravessar museus, arquivos, bibliotecas, coleções públicas e privadas. Ao final da pesquisa, havíamos identificado 7.280 itens distribuídos por 26 acervos. Documentos. Fotografias. Objetos pessoais. Correspondências. Projetos.
Registros de experiências. Vestígios de uma das mais extraordinárias aventuras intelectuais da passagem do século XIX para o século XX.
O volume impressionava. Mas meu maior espanto não veio dos números. Também não veio das máquinas. Veio do homem. Era natural que eu procurasse o inventor. Encontrei-o.
Encontrei uma inteligência técnica extraordinária, uma curiosidade quase indisciplinada, uma capacidade obsessiva de observar, experimentar, corrigir, simplificar e tentar novamente.
Mas, quanto mais avançava na pesquisa, menos me interessava apenas perguntar como Santos Dumont conseguira voar. Outra pergunta começava a me acompanhar: o que ele acreditava que deveria acontecer com o conhecimento depois de uma descoberta?
Talvez aí exista uma dimensão de sua modernidade ainda mais surpreendente do que as máquinas que construiu. Santos Dumont não parecia compreender a inovação como propriedade solitária de um vencedor.
A história da aviação, para ele, não começava consigo. Havia homens antes. Tentativas. Experiências. Máquinas que não alcançaram o resultado desejado. Hipóteses abandonadas. Caminhos que outros haviam aberto.
E havia seus contemporâneos, trabalhando simultaneamente sobre problemas semelhantes. Em seus próprios escritos, Santos Dumont discute os irmãos Wright, Levavasseur, Farman, Blériot e outros pioneiros como participantes daquela extraordinária conquista do ar. Ao acompanhar posteriormente o domínio dos céus por outros aviadores, chegou a dizer que assistia àquilo com “enternecido contentamento”: era seu sonho que se realizava.
Talvez por isso a expressão “Pai da Aviação”, embora consagrada no Brasil e carregada de justo reconhecimento histórico, diga menos sobre o homem do que imaginamos.
A paternidade sugere origem.
Santos Dumont parecia enxergar continuidade.
Isso modifica nossa compreensão da inovação.
Estamos acostumados a contar sua história através dos vencedores.
Quem chegou primeiro?
Quem inventou?
Quem registrou?
Quem recebeu o prêmio?
Quem obteve a patente?
Quem ficou com o nome?
Mas conhecimento raramente avança dessa maneira.
Antes de uma experiência bem-sucedida existem outras que não alcançaram o resultado esperado.
Chamamos muitas delas de fracasso.
Talvez a palavra seja injusta.
Uma experiência que demonstra que determinado caminho não funciona também produziu conhecimento.
Uma máquina que cai pode ensinar alguma coisa sobre equilíbrio.
Um motor excessivamente pesado elimina uma possibilidade.
Um material inadequado indica a necessidade de outro.
Uma hipótese que não se confirma reduz o território do desconhecido.
Talvez fracasso seja apenas o nome que damos a uma experiência antes de compreendermos aquilo que ela ensinou.
Isso não significa romantizar o erro.
Errar repetidamente sem aprender não é inovação.
A inovação começa quando o erro produz conhecimento.
Santos Dumont compreendia isso de maneira quase corporal.
Experimentava.
Voava.
Caía.
Modificava.
Reduzia peso. Alterava estrutura. Voltava ao campo. Tentava novamente.
Antes de ser triunfo, o voo foi incerteza.
Talvez tenhamos esquecido essa dimensão quando transformamos inovação numa palavra empresarial quase sempre associada ao êxito.
Toda organização quer ser inovadora.
Toda universidade deseja produzir inovação.
Governos criam programas de inovação.
Empresas mantêm departamentos de inovação.
Mas poucas instituições fazem a pergunta mais difícil: quanto erro estamos dispostos a tolerar para que alguma coisa verdadeiramente nova possa surgir?
Uma sociedade que deseja inovação, mas pune toda tentativa que não produz imediatamente um resultado, talvez não esteja cultivando inovação.
Está cultivando conformidade.
Há, entretanto, uma segunda dimensão da experiência de Santos Dumont que considero ainda mais provocadora.
O conhecimento precisava circular.
Sua postura diante das próprias invenções, particularmente a difusão das soluções do Demoiselle, tornou-se parte importante da memória sobre sua trajetória. Há registros de que estimulava outros construtores e permitia que seus avanços fossem conhecidos e reproduzidos. Fontes históricas também registram sua resistência à lógica de apropriação exclusiva por patentes.
Não precisamos transformá-lo anacronicamente em defensor de conceitos que surgiriam muitas décadas depois.
Santos Dumont não falava em open source.
Não conheceu o movimento de ciência aberta.
Não discutiu licenças digitais ou acesso aberto.
Mas existe em sua atitude uma pergunta que hoje nos é extraordinariamente familiar: a quem pertence o conhecimento depois que ele começa a transformar a vida de todos?
Essa pergunta tornou-se dramaticamente concreta durante a pandemia de Covid-19.
O mundo assistiu a uma das mobilizações científicas mais extraordinárias de nossa história recente.
Pesquisadores, universidades, empresas, laboratórios e governos trabalharam em velocidade impressionante.
Conhecimento acumulado durante décadas tornou possível desenvolver, testar e produzir vacinas num intervalo que teria parecido inimaginável pouco tempo antes.
Foi uma vitória da ciência.
Mas foi também um teste moral para nossa ideia de inovação.
Enquanto pessoas morriam em diferentes partes do planeta, o acesso às tecnologias de proteção não se distribuiu com a mesma velocidade com que a ciência havia avançado.
Países disputaram doses.
Governos com maior capacidade econômica celebraram contratos antecipados.
Nações pobres aguardaram.
E a comunidade internacional precisou discutir aquilo que, em circunstâncias ordinárias, parecia pertencer apenas aos especialistas em comércio e propriedade intelectual: até onde vai o direito de exclusividade quando o conhecimento protegido pode significar vida ou morte?
A controvérsia chegou formalmente à Organização Mundial do Comércio, com a proposta de flexibilização temporária de determinadas obrigações de propriedade intelectual relacionadas às tecnologias contra a Covid-19.
A questão não era simples.
E não devemos fingir que era.
Patentes possuem função econômica.
Pesquisa custa dinheiro.
Laboratórios precisam de investimento.
Desenvolvimento tecnológico envolve risco.
A possibilidade de retorno econômico pode incentivar aquilo que depois beneficiará milhões de pessoas.
Mas existe uma pergunta que nenhuma teoria econômica consegue eliminar: o que acontece quando proteger a criação começa a impedir que ela cumpra sua finalidade humana?
Talvez seja essa a tensão que Santos Dumont nos ajuda a enxergar.
Não precisamos escolher ingenuamente entre propriedade e compartilhamento.
Precisamos reconhecer que a inovação possui também uma dimensão ética.
Porque nenhuma descoberta nasce inteiramente sozinha.
Todo inventor recebe alguma coisa.
Conhecimento anterior.
Experimentos anteriores.
Materiais desenvolvidos por outros.
Perguntas formuladas antes de seu nascimento.
Erros que alguém já cometeu.
Soluções que alguém deixou disponíveis.
Talvez inovar seja justamente acrescentar um degrau a uma escada que não começamos e cujo último degrau jamais veremos.
Isso introduz uma palavra pouco frequente no vocabulário contemporâneo da inovação: dívida.
Todo inovador possui uma dívida intelectual com aqueles que vieram antes.
Não uma dívida que diminua sua autoria.
Uma dívida que a contextualiza.
Newton escreveu sobre enxergar mais longe por estar sobre ombros de gigantes.
Santos Dumont parece ter vivido alguma coisa semelhante no campo da experimentação.
Havia recebido degraus.
Acrescentaria os seus.
E outros continuariam subindo.
Talvez seja justamente por isso que uma das descobertas mais importantes de minha pesquisa sobre seu legado não tenha podido receber número de catálogo.
Depois de localizar 7.280 itens, percebi que uma das coisas mais importantes que Santos Dumont havia deixado não era um objeto.
Era uma atitude diante do conhecimento.
Isso me interessou profundamente como antropólogo.
Porque a antropologia não pergunta apenas o que uma sociedade sabe.
Pergunta também como ela produz conhecimento.
Quem pode produzi-lo.
Quem pode transmiti-lo.
Quem pode recebê-lo.
Quem possui autoridade para validá-lo.
E, finalmente, a quem esse conhecimento pertence.
Santos Dumont nos oferece uma resposta que ainda hoje incomoda.
Conhecimento cresce quando circula.
Isso não significa apagar autoria.
Ele tinha consciência de suas realizações.
Competiu por prêmios.
Defendeu publicamente sua participação na história da aviação.
Em seus escritos, inclusive, contestou versões da história que considerava injustas.
Essa nuance é importante.
Generosidade intelectual não exige apagamento do autor.
Compartilhar não significa renunciar à verdade histórica sobre quem fez o quê.
Significa apenas reconhecer que autoria e circulação não precisam ser inimigas.
Talvez essa seja uma das lições mais contemporâneas de Santos Dumont.
Vivemos numa época em que a capacidade humana de produzir conhecimento cresce em velocidade extraordinária.
Inteligência artificial.
Biotecnologia.
Genética.
Novos materiais.
Energia.
Computação quântica.
Tecnologias capazes de modificar profundamente aquilo que entendemos por trabalho, saúde, comunicação e talvez até por humanidade.
Nunca tivemos tanta capacidade de inovar.
Mas a pergunta moral permanece muito parecida: para que inovamos?
E imediatamente depois: para quem inovamos?
O Dia da Inovação talvez seja uma boa ocasião para resistirmos à tentação de celebrar apenas a novidade.
Nem tudo que é novo melhora o mundo.
Nem toda tecnologia produz emancipação.
Nem toda descoberta, por existir, torna-se automaticamente um benefício humano.
Inovação não deveria ser medida apenas pela distância entre aquilo que ontem era impossível e aquilo que hoje conseguimos fazer.
Talvez precise ser medida também pela distância entre aquilo que descobrimos e o número de pessoas a quem permitimos beneficiar-se da descoberta.
Foi isso que mais me surpreendeu depois de anos convivendo documentalmente com Santos Dumont.
Eu conhecia o inventor antes de começar a pesquisa.
Ao final, encontrei também um humanista.
Um homem capaz de compreender que participar de uma descoberta não significava necessariamente possuir sozinho aquilo que ela tornaria possível.
Talvez estivesse à frente de seu tempo não apenas porque imaginou máquinas que voariam.
Talvez estivesse à frente de seu tempo porque percebeu algo que ainda estamos tentando aprender: o conhecimento possui uma dimensão pública que nenhuma propriedade consegue esgotar.
Passei anos procurando aquilo que Santos Dumont havia deixado.
Encontrei milhares de documentos, objetos, fotografias, correspondências e registros.
Encontrei máquinas.
Encontrei inovação.
Encontrei engenharia.
Mas talvez o legado que mais me impressionou não estivesse inteiramente em nenhum deles.
Era uma maneira de compreender o conhecimento.
Recebemos alguma coisa daqueles que tentaram antes.
Acrescentamos aquilo que conseguimos descobrir.
E deixamos um degrau.
Para alguém que talvez nunca conheçamos.
Talvez essa seja uma boa definição de inovação.
Não apenas chegar onde ninguém chegou.
Mas compreender que, depois de chegar, existe uma última decisão.
Podemos transformar a descoberta em muro.
Ou em passagem.
Podemos fechar a porta atrás de nós.
Ou deixá-la aberta.
Santos Dumont escolheu deixar a porta aberta.
Mais de um século depois, quando celebramos a inovação, talvez devêssemos perguntar não apenas quem chegou primeiro, quanto vale uma descoberta ou quem possui juridicamente seus direitos.
Talvez devêssemos fazer uma pergunta mais simples: o que aquilo que descobrimos tornou possível para os outros?
Porque uma invenção pode ter autor. Uma patente pode ter titular. Uma descoberta pode ter data. Mas o futuro que o conhecimento abre não deveria pertencer a apenas um de nós.
Pedro Machado Mastrobuono é presidente da Fundação Memorial da América Latina, pós-doutor em Antropologia Social e foi agraciado com a Comenda Câmara Cascudo do Senado Federal por sua trajetória na proteção ao patrimônio cultural nacional.












