Por Isabelle Santos de Souza 

No dia 15 de abril, o calendário global reserva um espaço para celebrar o Dia Mundial da Arte. A escolha da data é uma homenagem ao nascimento de Leonardo da Vinci (1452-1519), um dos maiores gênios da história, que personificou a união indissociável entre a precisão científica e a sensibilidade estética. Instituída pela Associação Internacional de Arte (IAA) e oficializada pela UNESCO, a celebração não busca apenas exaltar obras em museus, mas reafirmar a arte como um pilar de paz, democracia e liberdade de expressão em um século XXI marcado pela hiperconectividade e, paradoxalmente, pelo isolamento afetivo. 

Para além do deleite visual, a prática artística está intrinsecamente ligada ao Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 4 (ODS 4) da ONU, que visa “assegurar a educação inclusiva, equitativa e de qualidade”. No cenário educacional contemporâneo, a arte frequentemente luta para manter seu espaço diante da pressão por disciplinas técnicas. No entanto, a Meta 4.7 do ODS 4 é clara ao destacar a necessidade de promover a valorização da diversidade cultural como ferramenta de cidadania. 

A educação que liberta é aquela que permite ao indivíduo ler o mundo através de diferentes lentes. Quando uma criança aprende sobre as cores de Tarsila do Amaral ou as formas de Aleijadinho, ela não está apenas memorizando nomes, ela está acessando a identidade de um povo e desenvolvendo empatia. A arte é a linguagem que preenche as lacunas onde o discurso puramente técnico falha, permitindo que a educação seja, de fato, integral e transformadora. 

Em uma metrópole como São Paulo, a conexão entre cultura e educação pulsa em cada esquina, revelando uma simbiose onde a arquitetura urbana e os centros culturais compõem um “currículo invisível”, fundamental para a formação de cidadãos sensíveis e críticos. No entanto, imersos na pressa da rotina, muitas vezes deixamos de notar que a própria logística e a organização dos espaços e eventos são, em essência, formas de arte. 

Para quem deseja mergulhar nessa reflexão de maneira mais profunda, o universo cultural oferece caminhos fascinantes. Na literatura, o filósofo Nuccio Ordine, em sua obra fundamental A Utilidade do Inútil (Zahar, 2016), argumenta com maestria como as artes e as humanidades, frequentemente desprezadas por não gerarem lucro imediato, são, na verdade, o que há de mais essencial para a manutenção da nossa dignidade e liberdade intelectual. No cinema, o filme Com Amor, Van Gogh ilustra perfeitamente essa entrega total à estética, sendo o primeiro longa da história totalmente pintado a óleo para narrar a vida e as angústias do pintor holandês.  

Caminhar pelas ruas de São Paulo no Dia Mundial da Arte também convida a um olhar atento à arquitetura e ao design que nos cerca. Uma visita ao Museu de Arte de São Paulo (MASP), por exemplo, permite não apenas o contato com o acervo, mas o encontro com o legado de Lina Bo Bardi, cujas exposições rompem a barreira entre obras e o observador, humanizando o espaço da arte. No fim das contas, a educação que liberta é aquela que acontece quando nos permitimos ser transformados por uma cor, um som ou uma ideia nova. Neste 15 de abril, assim como em todos os dias do ano, o convite permanece aberto: que possamos enxergar a educação não apenas nos livros didáticos, mas em todos os lugares onde a criatividade se faz presente. 

Fontes: 

UNESCO. World Art Day. [S. l.]: UNESCO, [2024]. Disponível em: https://www.unesco.org/en/days/world-art. Acesso em: 3 abr. 2026. 

NAÇÕES UNIDAS BRASIL. Objetivo 4: Educação de Qualidade. Brasília, DF: ONU Brasil, [2024]. Disponível em: https://brasil.un.org/pt-br/sdgs/4. Acesso em: 3 abr. 2026. 

ESTADO DE SÃO PAULO. Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas. Cultura e Educação. São Paulo: Secretaria da Cultura, [2024]. Disponível em: https://www.cultura.sp.gov.br. Acesso em: 3 abr. 2026. 

ORDINE, Nuccio. A utilidade do inútil: um manifesto. Tradução de Luiz Carlos Bombassaro. Rio de Janeiro: Zahar, 2016. 

GADOTTI, Moacir. A cidade como espaço educativo. São Paulo: Instituto Paulo Freire, 2006. Disponível em: https://www.paulofreire.org. Acesso em: 7 abr. 2026. 

Isabelle Santos de Souza é graduada em Comunicação Social e cursando Pós-Graduação em Arte, História e Educação nos Museus Paulistas 

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