
“As cidades crescem como crescem os povos, segundo o que sonham.”
(Darcy Ribeiro)
São Paulo chega ao seu aniversário não como quem celebra um ciclo concluído, mas como quem reencontra, a cada 25 de janeiro, a urgência de pensar a si mesma. Há cidades que fazem aniversário como quem apenas atravessa o tempo, e há cidades que, a cada retorno, revelam a própria inquietação civilizatória. São Paulo pertence a essa segunda categoria. Ela não é um fato consumado, mas um processo em movimento, um corpo vivo que respira suas contradições e que, ao mesmo tempo, guarda na sua arquitetura, na sua gente e na sua memória todas as perguntas que ainda não respondemos. Celebrar São Paulo, neste ano, é celebrar também o convite que o ODS 11 nos faz, o de construir cidades e comunidades sustentáveis, cidades que não sobrevivam apenas, mas que acolham, integrem, protejam e projetem a humanidade de quem nelas vive.
A cidade sempre foi esse espelho tenso da América Latina. No Memorial da América Latina, que tenho a honra de presidir, é impossível não perceber que São Paulo carrega em escala urbana aquilo que o continente vive em escala civilizatória. A mistura de povos, a força das migrações, a resistência das culturas populares, a vitalidade das periferias, a criação artística que brota de todos os cantos, mas também a desigualdade que insiste em organizar o espaço urbano como cicatriz. São Paulo reflete a grandeza e a dor latino-americana, é um mosaico de nações, idiomas, ritmos e memórias, convivendo numa mesma cidade que, apesar de tudo, ainda tenta se reconhecer como casa de todos.
Ao caminhar pelo centro, percebo que São Paulo envelhece sem admitir que envelhece. Prédios que já abrigaram teatros, cinemas, jornais e instituições culturais permanecem silenciosos, como se aguardassem que alguém os chamasse novamente pelo nome. A memória urbana é sempre o primeiro movimento de uma cidade que tenta decidir quem deseja ser. Uma metrópole que não olha para sua história não olha para o seu futuro. E é aqui que o ODS 11 se torna mais do que diretriz técnica, ele se converte em responsabilidade moral. Preservar o patrimônio, revitalizar o espaço público, garantir habitação digna, implantar políticas culturais e recuperar o sentido de pertencimento não são atos administrativos, são atos de vida coletiva. São Paulo só existirá plenamente quando conseguir reconhecer que o cuidado com sua memória é o cuidado consigo mesma.
O aniversário da cidade expõe com força a tensão entre a São Paulo que produz riqueza e inovação, e a São Paulo que ainda nega direitos básicos a uma parte significativa de seus habitantes. A desigualdade urbana não é apenas uma injustiça social, é uma fratura civilizatória. O ODS 11 nos obriga a questionar que cidade celebramos quando muitos ainda não têm acesso ao direito fundamental de ocupá-la, atravessá-la, vivê-la. A cidade é sempre mais dura com os que dela mais precisam: idosos, crianças, pessoas com deficiência, trabalhadores que atravessam longas distâncias, migrantes, comunidades periféricas que reinventam todos os dias a própria ideia de resistência.
E, no entanto, São Paulo sempre manteve algo precioso: sua capacidade de produzir cultura. A metrópole respira teatro, música, dança, literatura, culinária, museus, feiras, cinemas, saraus. Não há ODS 11 possível sem cultura, porque nenhuma cidade se sustenta sobre concreto e aço apenas. A sustentabilidade urbana não é apenas ambiental ou tecnológica, é também simbólica. Uma cidade sem cultura perde sua alma, perde sua narratividade, perde sua possibilidade de futuro. É pela cultura que uma metrópole se torna habitável, respirável, desejável. É pela cultura que ela ensina seus habitantes a conviver, a imaginar e, ainda, a sonhar.
Darcy Ribeiro lembrava que o Brasil e a América Latina se definem menos pelo que já são e mais pelo que ainda podem ser. São Paulo, nesse sentido, é a expressão máxima dessa ideia. Ela é a cidade possível, mas também a cidade necessária. A cidade que contém, ao mesmo tempo, a utopia e o conflito. A utopia porque reúne, num só território, povos do mundo inteiro que aprendem a dividir o mesmo chão. O conflito porque a desigualdade insiste em ditar os limites da convivência. No entanto, é dessa tensão que São Paulo surge como laboratório civilizatório, como espaço onde a inovação social, a arte, o pensamento urbano e a resistência cotidiana ocorrem de forma simultânea e pulsante.
No aniversário da cidade, a pergunta não deve ser quantos anos São Paulo tem, mas quantos anos queremos que ela ainda tenha. Toda cidade faz aniversário, mas poucas têm coragem de se perguntar que futuro desejam construir. São Paulo precisa decidir se continuará sendo cidade para alguns ou se se tornará cidade para todos. O ODS 11 é menos um objetivo técnico e mais um chamado ético, uma convocação para que a metrópole reencontre sua própria promessa.
Ao final, percebo que celebrar São Paulo é celebrar os que nela insistem. Os que chegam, os que permanecem, os que reconstruíram aqui suas pátrias perdidas, os que a percorrem de madrugada para trabalhar, os que ocupam a arte como forma de resistência, os que fazem da cidade seu idioma e seu destino. São Paulo é feita de futuros que ainda não nasceram, e talvez por isso continue a ser uma das cidades mais fascinantes do mundo. Porque nenhuma outra metrópole latino-americana carrega tamanha capacidade de se reinventar e, ao mesmo tempo, tanta dificuldade em cuidar de si mesma.
Neste 25 de janeiro, a cidade renova seu pacto silencioso com os que acreditam nela. E cabe a nós, que a vivemos e a pensamos, lembrar que o futuro de São Paulo não está apenas no que ela constrói, mas no que ela preserva, no que ela protege, no que ela sonha. O aniversário de São Paulo é a oportunidade de afirmarmos que cidade nenhuma é sustentável sem memória, sem pertencimento, sem cultura, sem humanidade. E que toda cidade é, antes de tudo, o reflexo do que escolhemos ser como sociedade.
Nasci em São Paulo, cresci em São Paulo e, embora a vida tenha me levado a morar e estudar fora em longos períodos, em países e cidades tão distintas quanto distantes, foi sempre a esta metrópole que eu soube retornar. Conheço de perto o modo como outras cidades se organizam, a forma como constroem seus símbolos e como narram sua identidade, mas poucas vezes encontrei, fora daqui, a combinação rara de energia humana, acolhimento e inquietação criadora que São Paulo oferece. Durante minha infância e juventude, era comum ouvir comparações com Nova York, como se São Paulo tivesse um desejo quase infantil de ser como a cidade que simbolizava um modelo de desenvolvimento, prosperidade e cosmopolitismo. Mas, hoje, depois de viver o mundo, sinto que São Paulo é muito superior a essa comparação. Há algo nesta terra que nenhuma outra metrópole conseguiu sintetizar com a mesma potência: a capacidade de acolher sem repelir, de receber sem julgar, de conviver com o diferente sem transformá-lo em ameaça.
Essa vocação paulistana se materializa nas manifestações artísticas da cidade, porque a arte é sempre o lugar onde uma sociedade sublima suas emoções e transforma dor em beleza. São Paulo, ao longo das últimas décadas, tornou-se uma referência gastronômica mundial, com restaurantes que dialogam de igual para igual com centros consagrados, sem jamais perder a alma plural que os alimenta. Sua música, seu teatro, seus museus, sua dança, seu cinema e seu dinamismo cultural são reflexos dessa pulsação que Darcy Ribeiro chamava de força civilizatória, uma energia criadora que nasce da mistura, da fronteira, do encontro, do improviso e da convivência.
Antigamente, dizia-se que o brasileiro sofria de complexo de vira-lata. Hoje isso mudou. A América Latina, e São Paulo em particular, não carregam mais a vergonha, mas sim o vigor de uma identidade que sabe o que tem a oferecer ao mundo. Ser latino-americano deixou de ser visto como uma desvantagem e passou a ser motivo de orgulho. Nesta cidade, isso fica evidente na forma como transformamos conflitos em criatividade, diferenças em convivência, feridas em arte. São Paulo ensina ao mundo que a verdadeira grandeza de uma cidade não está na ostentação, mas na capacidade de transformar sua diversidade em beleza e sua complexidade em potência.
E talvez seja isso que, no fundo, define São Paulo no seu aniversário: uma cidade que não se limita a existir, mas que insiste em ser. Que aprende com suas contradições, que acolhe quem chega, que reinventa quem fica, que inspira quem parte e que emociona quem retorna. Uma cidade que pulsa como poema inacabado, como sinfonia aberta, como promessa que se refaz diariamente. Celebrar São Paulo é celebrar a beleza de um lugar que, apesar de seus abismos, continua ensinando ao mundo que a verdadeira civilização nasce do encontro, da mistura, do diálogo e da capacidade de transformar dificuldades em criação.
E assim, neste 25 de janeiro, São Paulo se levanta mais uma vez como uma cidade necessária. Uma cidade que não pede apenas para ser celebrada, mas para ser compreendida. Uma cidade que não oferece apenas ruas, prédios e avenidas, mas horizontes, possibilidades e futuros. Uma cidade que, como nós, cresce segundo aquilo que sonha.
Pedro Machado Mastrobuono é presidente da Fundação Memorial da América Latina, pós-doutor em Antropologia Social, e foi agraciado com a Comenda Câmara Cascudo do Senado Federal por sua trajetória na proteção ao patrimônio cultural nacional.












