Por Carolina Mestriner  

A palavra voluntário chega ao português pelo latim voluntarius, derivado de voluntas: vontade, desejo, intenção. Em sua origem, a ideia de voluntariado sempre esteve ligada ao ato de agir por escolha própria, aquilo que nasce do íntimo e não de uma obrigação. Essa raiz etimológica resgata algo essencial: ser voluntário é mover-se por decisão consciente, motivado por valores que ultrapassam o interesse individual. 

Ao longo da história, porém, o significado de “vontade” assumiu nuances diversas. Em civilizações antigas, como o Egito e a Mesopotâmia, atividades que hoje entenderíamos como voluntárias (auxílio comunitário, cuidado com idosos, apoio em rituais religiosos) eram práticas ligadas à vida coletiva, muitas vezes sem uma distinção clara entre dever social e ação espontânea. Ainda assim, o princípio da escolha livre foi ganhando força conforme sociedades passaram a reconhecer o valor da solidariedade como virtude. 

Religião, solidariedade e o nascimento institucional do voluntariado 

A relação entre voluntariado e religião é um dos fios condutores mais marcantes dessa história. Tradições espirituais variadas, do judaísmo ao cristianismo, do islã ao budismo, estruturaram códigos éticos que valorizam a ajuda ao próximo. No judaísmo, por exemplo, a noção de tzedaká – justiça social – incentiva atos de apoio mútuo como parte essencial da vida comunitária. No cristianismo, a caridade foi institucionalizada desde os primeiros séculos, quando grupos organizados cuidavam de doentes, órfãos e peregrinos. No islã, o zakat, um dos cinco pilares, estabelece a partilha de recursos como dever moral. 

Essas tradições criaram ambientes férteis para o surgimento das primeiras instituições formais de voluntariado: confrarias religiosas, ordens de apoio a hospitais, cozinhas comunitárias, abrigos e serviços de caridade. Muitos dos hospitais europeus medievais, por exemplo, funcionavam graças ao trabalho de pessoas que dedicavam parte da vida a cuidar de desconhecidos, motivadas por fé e por valores de compaixão. 

Guerras: quando o voluntariado se torna vital 

A história moderna ampliou esse conceito em um contexto menos espiritual, mas igualmente marcante: as guerras. A partir do século XIX, especialmente durante conflitos como a Guerra da Crimeia e, depois, as Guerras Mundiais, surgiram organizações que redefiniram o papel do voluntário. 

Um caso emblemático é o de Florence Nightingale, que liderou um grupo de voluntárias pioneiras no atendimento a soldados feridos, transformando para sempre o campo da enfermagem. A fundação da Cruz Vermelha, em 1863, por Henry Dunant, é outro exemplo determinante: tratava-se de uma organização civil, guiada por princípios humanitários, que contou desde o início com voluntários para operar em cenários de crise extrema. 

Durante a Segunda Guerra Mundial, milhões de pessoas atuaram como voluntárias em frentes diversas: coleta de alimentos, produção de roupas para tropas, socorro a vítimas de bombardeios, acolhimento de refugiados, entre outras ações. Nesse período, o voluntariado ganhou uma dimensão estratégica, reconhecida até mesmo por governos que coordenavam parte das atividades de ajuda comunitária. 

Serviços públicos e o espírito cívico 

Ao longo do século XX, o voluntariado passou também a dialogar com políticas públicas e com o conceito de cidadania ativa. Organizações comunitárias, conselhos locais, associações de bairro e entidades filantrópicas cresceram em torno da ideia de que os cidadãos podem e devem participar da construção de uma sociedade mais justa. Muitas vezes, essas iniciativas acontecem em meio a guerras, epidemias e desastres de variados tipos. Exemplo disso é a Unibes, que nasceu e se fortaleceu no Brasil para ajudar famílias da comunidade judaica recém-chegadas à capital paulista em decorrência da 1ª e 2ª Guerra Mundial.  

Em países como o Canadá e o Reino Unido, por exemplo, programas de voluntariado passaram a integrar políticas de inclusão e saúde pública. A noção de “serviço voluntário” ganhou contornos oficiais, como no Peace Corps norte-americano, criado em 1961, que incentivava jovens a atuar em projetos sociais e humanitários ao redor do mundo.  

O voluntariado contemporâneo: ESG, impacto social e propósito 

Hoje, a cultura do voluntariado vive um novo ciclo de expansão, influenciado por temas como ESG (ambiental, social e governança), diversidade, inovação social e responsabilidade corporativa. 

Empresas de diferentes setores criam programas de voluntariado para seus colaboradores, conectando ações sociais com valores organizacionais. Esse movimento não apenas beneficia comunidades, mas também fortalece a cultura interna e gera senso de pertencimento. Estudos recentes apontam que iniciativas voluntárias corporativas aumentam o engajamento das equipes e melhoram a percepção de propósito no ambiente de trabalho. 

Além disso, o ecossistema de impacto social deu novos contornos ao voluntariado: hoje é comum ver profissionais oferecendo tempo e conhecimento técnico em áreas como gestão, finanças, comunicação e tecnologia para apoiar organizações da sociedade civil e projetos socioambientais. São os mentores voluntários, uma rede de profissionais de diferentes áreas dispostos a orientar organizações: de administradores e contadores a estrategistas digitais e especialistas em tecnologia.  

Saúde mental, bem-estar e a escolha de se importar 

Se, no passado, o voluntário era visto como alguém que se sacrificava pelo outro, as pesquisas mais recentes mostram que a prática traz benefícios mútuos. Há evidências consistentes de que o voluntariado reduz níveis de estresse, fortalece conexões humanas, amplia repertórios culturais e contribui para a sensação de propósito, um dos fatores mais relevantes para o bem-estar emocional. 

Uma curiosidade amplamente estudada na psicologia é o chamado “efeito do ajudante”: ao realizar um ato altruísta, o cérebro libera neurotransmissores associados ao prazer e à satisfação, como dopamina e oxitocina. Ajudar o outro, portanto, não é apenas um gesto generoso, mas também um movimento que gera saúde. 

Em sociedades marcadas por rotinas aceleradas e crescentes índices de ansiedade e isolamento, o voluntariado se tornou também uma via para reconstruir laços, desenvolver empatia e criar redes de apoio. 

Por que celebrar o Dia Internacional do Voluntariado? 

O Dia Internacional do Voluntariado, comemorado em 5 de dezembro desde 1985, foi instituído pela ONU para reconhecer a contribuição de milhões de pessoas que dedicam seu tempo a causas coletivas. Mas essa data vai além da homenagem: ela chama a atenção de governos, organizações e cidadãos a repensarem seu papel na construção de comunidades mais solidárias e sustentáveis. 

Celebrar o voluntariado é reconhecer que mudanças reais começam por escolhas individuais, e que essas escolhas, quando feitas com intenção e vontade, podem gerar transformações profundas. É também reforçar que a liberdade de agir em prol do outro, sem imposição, é uma das expressões mais concretas da humanidade. 

Em um mundo que enfrenta desafios sociais, ambientais e humanitários de grande escala, lembrar essa data é um gesto simbólico e, ao mesmo tempo, prático: destaca o poder do engajamento civil, valoriza quem dedica tempo e energia ao bem comum e inspira mais pessoas a descobrir que a vontade – voluntas – continua sendo um dos motores mais potentes da mudança. 

Conheça o programa de Voluntariado da Unibes  

Referências valiosas para quem deseja aprender mais sobre o tema: 

BRASIL. Presidência da República. Lei nº 9.608/1998 – Dispõe sobre o serviço voluntário. 

ELLIS, Susan J. The Volunteer Management Handbook. New York: Wiley, 2011. 

ETHOS – Instituto Ethos. Publicações sobre responsabilidade social empresarial e voluntariado corporativo. 

FALCONER, Andrés Pablo. A promessa do terceiro setor. São Paulo: EAESP/FGV, 1999. 

HUSTINX, Lesley; HANDY, Femida; CLOCKKERS, Ram. Volunteering. In: SMITH, David et al. (ed.). The Palgrave Handbook of Global Philanthropy. Palgrave Macmillan, 2018. 

IDIS – Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social. Pesquisa Voluntariado no Brasil (diversas edições). 

IARSE – Instituto Argentino de Responsabilidad Social Empresaria. Publicações em português sobre responsabilidade social empresarial e voluntariado corporativo. 

LANDIM, Leilah (org.). Ações coletivas, ONGs e voluntariado. Rio de Janeiro: NAU Editora, 1998. 

MAUSS, Marcel. Ensaio sobre a dádiva. Lisboa: Edições 70, 2003. 

ONU – Organização das Nações Unidas. International Volunteer Day for Economic and Social Development. Documentos oficiais disponíveis em português. 

PUTNAM, Robert. Bowling Alone – O colapso e o ressurgimento da comunidade americana. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2000. 

SALAMON, Lester; ANHEIER, Helmut. O terceiro setor internacional: uma perspectiva comparada. Traduções e capítulos amplamente utilizados em coletâneas brasileiras. 

WORLD HEALTH ORGANIZATION (WHO). Volunteering and Health. WHO Report, 2020. 

WILSON, John. Volunteerism Research: A Review Essay. Nonprofit and Voluntary Sector Quarterly, v. 41, n. 2, p. 176–212, 2012. 

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