
Por Hebecca Silva
Na Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), no dia 22 de dezembro de 2015, foi definido que no dia 11 de fevereiro é comemorado o Dia das Mulheres e Meninas na Ciência.
Essa data contribui para alcançar a igualdade de gênero, como parte do desenvolvimento humano, e também para dar visibilidade ao Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 5 (ODS 5), da Agenda de 2030 da ONU, que tem como foco acabar com a discriminação e com a violência de gênero.
Com isso, é válido lembrar que, ao longo da história da humanidade, grandes mulheres e meninas contribuíram — e ainda contribuem — em várias áreas do conhecimento, fazendo grandes descobertas principalmente dentro da ciência.
Separamos uma lista com algumas dessas mulheres e meninas tão corajosas e inspiradoras:
Ada Lovelace (1815-1852) – A primeira programadora da história também era matemática e escritora. A inglesa criou o primeiro algoritmo do mundo para ser processado pela máquina analítica de Charles Babbage, divulgando os resultados em 1843. Previu também as bases da computação como conhecemos hoje e da IA.
Marie Curie (1867-1934) – A cientista polonesa-francesa é um dos nomes mais importantes da ciência, Marie cunhou o termo “radioatividade”. Durante seu estudo sobre os raios urânicos descobriu em 1898, ao lado de Pierre Curie, os elementos polônio e rádio. Foi a primeira mulher a ganhar um Prêmio Nobel e a única mulher a ganhar dois prêmios: de física e química.
Jaqueline Goes de Jesus (1989) – Biomédica e pesquisadora baiana que lutou na linha de frente contra a COVID-19. Jaqueline liderou a equipe responsável por sequenciar o genoma do vírus SARS-CoV-2 (coronavírus), apenas 48 horas depois da confirmação do primeiro caso no país.
Chien-Shiung Wu (1912-1997) – Foi a brilhante física sino-estadunidense que derrubou a Lei da Conservação da Paridade com o “Experimento Wu” (1956), que provava a teoria de seus colegas Lee e Yang. O feito chocou a comunidade científica na época, pois a paridade era um pilar fundamental da física moderna. Também participou do Projeto Manhattan, que tinha o objetivo de criar as primeiras armas nucleares do mundo, entre outras contribuições ao longo de sua vida.
Rosalind Franklin (1920-1958) – Fez uma das descobertas mais importantes do século XX. A química britânica produziu a foto 51 (1952), que mostrava pela primeira vez a forma da estrutura do DNA, fornecendo dados para o modelo de dupla hélice. Além disso, ela trouxe outras contribuições com suas pesquisas, ajudando na compreensão do carvão, carbono, grafite, RNA e do vírus.
Gitanjali Rao (2005) – A jovem inventora e ativista, de apenas 12 anos na época, se comoveu com a crise hídrica em Flint (Michigan, 2014) e assim criou o Tethys: dispositivo que identifica a contaminação de chumbo na água. A americana prodígio ainda inventou o Epione, para o diagnóstico precoce de vício em opioides e o Kindly, que usa IA para a detecção de bullying.
Nicole Oliveira Semião (2012) – Ficou conhecida como a mais jovem brasileira a receber reconhecimento internacional na área espacial. A alagoana ganhou o título aos 8 anos por revistas internacionais e foi uma das crianças do Global Child Prodigy Awards 2022. Nicole detectou cerca de 80 asteroides e participou de programas de Ciência Cidadã, também já fazendo parte do Programa Caça-Asteroides do Ministério da Ciência. Também tem um asteroide batizado em sua homenagem, o (292352) Nicolinha.
Mary Anning (1799-1847) – Ainda sobre grandes meninas, Mary Anning foi uma paleontóloga e colecionadora de fósseis inglesa. Entre os 10 e os 12 anos ela encontrou um esqueleto de cerca de 5 metros. Este era o ictiossauro, um animal marinho extinto durante o período cretáceo. Em 1823 também encontrou um esqueleto completo de plesiossauro e, em 1828, um fóssil de pterodátilo.
Wang Zhenyi (1768-1797) – É um bom exemplo de como o apoio pode contribuir para que uma mulher desenvolva suas ideias e contribua para o avanço da ciência. Zhenyi viveu durante a Dinastia Qing e teve o incentivo da família para estudar desde criança, indo contra os costumes feudais. Ela se tornou uma importante astrônoma, matemática e poeta, trazendo notáveis contribuições para a ciência, como o cálculo de equinócios, eclipses e o ensino simplificado de operações matemáticas. Zheny também se diferenciava na escrita de poemas, tratando de problemas sociais e até mesmo de temas políticos da época.
Alessandra Giliani (1307-1326) – Foi supostamente uma jovem italiana que teria se infiltrado na Universidade de Bolonha, vestida como homem, para estudar anatomia, se tornando assim a primeira anatomista e patologista registrada na história. Ela teria se especializado em dissecação e também desenvolvido um método para observar pequenos vasos sanguíneos sem danificar nenhum tecido humano. As fontes sobre sua vida e trabalho são escassas, por esse motivo, algumas pessoas acreditam que Alessandra não existiu, mas que teria sido criada pelo pseudo-historiador Alessandro Maquiavel no século XVIII. Contrapondo tal ideia, essa poderia também ter sido uma desculpa para apagar as contribuições científicas de Alessandra, algo comum de ser feito com figuras femininas, ainda mais durante aquele período.
A grande maioria dessas mulheres sofreu com desigualdade de gênero. Ada Lovelace teve seu trabalho ofuscado, só tendo o devido reconhecimento por causa de uma republicação em 1953. Marie Curie, mesmo com toda sua contribuição, teve sua entrada na Universidade de Ciências da França negada por ser uma mulher. Chien-Shiung Wu criou o experimento que provou a teoria de Lee e Yang, mas foi ignorada pelo Nobel, que foi dado apenas a eles em 1957. Rosalind Franklin teve sua descoberta sobre a estrutura do DNA roubada por seus colegas de pesquisa, que receberam um Nobel pelo feito científico alguns anos após a morte de Franklin. Ela não foi sequer mencionada. Mary Anning viveu com dificuldades financeiras até o fim da vida, suas contribuições foram completamente ignoradas. Alessandra Giliani teria sido supostamente “apagada” da história.
É importante que não subestimemos a importância do dia 11 de fevereiro. Apoiar é dar voz e oportunidade às próximas gerações de Lovelaces e Curies. E garantir que as futuras mulheres e meninas não sejam excluídas do reconhecimento de seus esforços, é também um passo promissor para o desenvolvimento humano.
Leia, descubra e questione estereótipos:
📕 Livros para adultos
SCHIEBINGER, Londa. O feminismo mudou a ciência? Bauru: EDUSC, 2001.
FOX KELLER, Evelyn. Reflexões sobre gênero e ciência. São Paulo: Editora UNESP, 2006.
MARGUERITE, Pereira. Mulheres na ciência: uma história da presença feminina no conhecimento científico. São Paulo: Editora Livraria da Física, 2019.
📗 Livros infantis e juvenis
SÁ, Katia. Meninas na ciência. São Paulo: Editora Melhoramentos, 2019.
IGNOTOFSKY, Rachel. Mulheres incríveis que mudaram o mundo.
São Paulo: HarperCollins Brasil, 2017.
PANKHURST, Kate. Histórias de ninar para garotas rebeldes – 100 brasileiras extraordinárias. São Paulo: V&R Editoras, 2022.
VALENTE, Mariana Dias (org.). Pequeno manual antissexista para cientistas.
São Paulo: Editora Autêntica, 2020.
* OKUMURA, Renata. Asteroide recebe nome de Nicolinha, astrônoma mirim brasileira. CNN Brasil, 2022. (vídeo) Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/tecnologia/asteroide-recebe-nome-de-nicolinha-astronoma-mirim-brasileira/
📘 Artigos e materiais institucionais
BRASIL. Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação. Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência. Disponível em: https://www.gov.br/inpe/pt-br/assuntos/ultimas-noticias/dia-internacional-das-mulheres-e-meninas-na-ciencia
UNESCO. Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência (11 de fevereiro).
Disponível em: https://www.unesco.org/pt/days/women-girls-science
ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS (ONU Brasil). Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 5: Igualdade de gênero. Disponível em: https://brasil.un.org/pt-br/sdgs/5
NATIONAL GEOGRAPHIC BRASIL. A primeira mulher programadora da história previu a existência da inteligência artificial. Disponível em: https://www.nationalgeographicbrasil.com/ciencia/2023/10/a-primeira-mulher-programadora-da-historia-previu-a-existencia-da-inteligencia-artificial
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Hebecca Silva é estudante de Letras e voluntária da Unibes.












